Lifeline_5

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A tarde era passada no recinto do mercado, perto do poço central de Saiune, as trocas eram feitas por quem tinha tido a sorte de esperar até ao dia certo, outros menos perspicazes traziam os seus produtos, pequenos, verdes ou mirrados. As trocas sucediam-se durante horas, quem não tinha produtos para trocar, como era o meu caso, trocava serviços, lavar o chão, colher batatas, cozer roupa, entre muitos outros ofícios que podiam ser feitos por muita gente em troca de comida para a família.

Mestre Flavian acenou-me ao longe assim que me viu chegar com as mãos vazias duma manhã trabalhosa. Os meus pés doíam de ter andado quilómetros com as cabras e de ter carregado os fardos para o celeiro. Apesar de lavado, o meu vestido estava já bastante desalinhado e os meus cabelos eram tudo menos penteados, com algumas palhas e pequenas ervas à mistura parecia que tinha mergulhado numa pilha de folhas outonais. Sacudi o vestido e tentei apanhar o cabelo enquanto me dirigia para a estalagem.

A estalagem de Mestre Flavian era cheia de histórias, e sempre com clientela. Os forasteiros sabiam da boa qualidade do Porco Saltimbanco e consideravam a estalagem um ponto obrigatório da sua viagem. Por vezes, eu e algumas das raparigas da aldeia ficava-mos à espreita nas janelas do salão, para ver os visitantes e por vezes apareciam alguns bem interessantes. Só olhar para a estalagem fazia-me sonhar que um forasteiro sairia por aquela porta e acenaria como se eu fosse uma dama nobre, pouco depois traria um cavalo branco esplendoroso pelas rédeas e pedir-me-ia a mão para me ajudar a subir. Cavalgaria com ele até bem longe, até um castelo de fantasia, com grandes torres e muitas bandeiras, com muita gente, e muita cor, a cada novo olhar encontraria uma pessoa nova, os guerreiros fardados a rigor com suas grandes espadas faziam uma vénia quando me vissem passar eu acenava e via-me corar.

Um assobio estridente, fez-me despertar do meu sonho andante, Mestre Flavian com as mãos nas ancas, praguejava. O rubor subiu-me às faces, apressei-me com o laço nos meus cabelos e acelerei a minha marcha. À porta do Porco Saltimbanco, Mestre Flavian deitou-me um olhar inquisidor – “Não tiveste sorte hoje, Lhara? – sacudi um pouco o vestido, e olhei para Mestre Flavian com um ar pequeno, assustado e triste. “Não te preocupes minha filha, pois preciso de ti! Anda, entra, vai-te lavar e vem ter comigo à cozinha.” O acordo era simples e fácil, Aine a sua filha e ajudante na estalagem, estava grávida e precisava de um pequeno descanso, o meu trabalho era o de lavar os pratos do almoço e preparar a loiça para o jantar, em troca receberia dois pães e uma bilha de cerveja.

A tarde passou num ápice, a quantidade enorme de loiça era uma tarefa bastante fácil comparada com o lavar do celeiro, ou uma tarde a apanhar batatas ao sol. Sai a correr da estalagem e dirigi-me para o caminho que ia dar à praia mesmo antes do grande sol alaranjado se derreter contra as águas geladas do oceano. Encontrava-me no ponto mais alto da falésia, a praia era grande, a areia era branca como a neve, e as ondas de um azul claro espumoso que reflectia os últimos raios solares. Contemplei a paisagem no seu todo, olhei o grande pontão, onde os pescadores normalmente se juntavam para trazer o bom peixe de Saiune. As ondas eram pequenas mas acariciavam o pontão com uma certeza repetida. O mar estava calmo, como numa noite de verão. Algumas gaivotas passeavam calmamente pela praia, debicavam a areia, voavam, lançavam-se ao mar, como se fossem donas do céu, do mar e da terra, eram imperturbáveis.

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