Lifeline_6

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O meu olhar seguiu uma gaivota que tinha a cabeça escura, o seu voo passou por cima do pontão e começou a dirigir-se para Este, a trajectória ia ao encontro da continuação do areal branco e imaculado. Um barco com velas vermelhas apareceu no horizonte, e logo a seguir, um barco transformou-se em dezenas, em centenas, e as gaivotas deixaram de ser importantes.

Corri para a quinta para avisar os meus pais, ainda era uma corrida longa. Arregacei o vestido, sentia a noite a chegar, a escuridão espalhava-se depressa assim que o grande vermelho entrou na água e deu lugar à Lua, o seu lugar no céu. Era um pensamento fútil tendo em conta a razão porque continuava a correr. A quinta já não era muito longe, o caminho fazia uma grande curva perto da Quinta das Abóboras, subia o monte dos Eucaliptos até a Fonte Riscada e depois era uma longa descida até casa.

A Quinta das Abóboras era pequena em comparação com a dos meus pais, a Quinta do Feno Ondulante, no entanto, tinha o seu encanto. A quantidade enorme de abóboras dava o nome à quinta dos pais de Krish, eles tinham uma casa simples, um celeiro azulado e uma grande quantidade de espantalhos de palha espalhados pela quinta, que davam um aspecto assustador principalmente à noite. O Monte dos Eucaliptos ficava perto da curva rochosa, dali conseguia ver a praia distante, onde as centenas de barcos já deviam estar na praia.

Apesar de já não conseguir correr, acelerei o passo para chegar ao topo do Monte dos Eucaliptos onde a Fonte Riscada se encontrava, e onde podia ver o desenvolvimento dos acontecimentos. Já tinham passado um quarto de hora desde que o sol se tinha posto e que os barcos tinham chegado.

Sentada na borda da Fonte Riscada, recuperava o meu fôlego, limpava a testa do suor e via ao longe na praia, centenas de homens fardados de vermelho, montando grandes tendas e transportando caixas dos barcos para a praia. A minha respiração abrandou, e senti que tinha de continuar para puder contar o que se estava a passar.

Comecei a descer a colina do Monte dos Eucaliptos, em breve estaria em casa. No instante a seguir comecei a ouvir ao longe o eco de um metálico, algo que me lembrava as festas da aldeia, o cheiro de carne grelhada e as imagens de pessoas sorridentes a dançar por toda a zona do mercado. Mas o tempo não era de festas, e as batidas incessantes, levavam-me a crer, que não era a única que estaria a par do que se estava a passar. O cansaço começou a aproximar-se ao mesmo tempo que as luzes da quinta ficaram visíveis após a curva. O cheiro a carne cozinhada era intenso, o fumo que saia da chaminé indicava que o jantar estava quase pronto.

A entrada principal, que dava para a estrada, estava arranjada, as flores amarelas plantadas perto da porta, faziam sobressair os lilases da entrada. Não parei o tempo suficiente para absorver as cores que os canteiros da casa ofereciam. Abri a porta de rompante, Sear, meu pai, estava sentado à mesa com a saladeira na mão, minha mãe, Tailla, trazia um tacho, provavelmente com batatas cozidas, o meu pequeno irmão Gaine estava já sentado com um garfo na mão e com um pedaço de bife no prato. Gritei, sem medir o som da minha voz – “Barcos na praia, centenas com bandeiras vermelhas a montarem campo. O sino da aldeia está a tocar. Temos que ir!” – as minhas palavras foram geradoras de confusão, minha mãe deixou as batatas caírem no chão, com um grito de susto, o meu pai, bateu na mesa com o punho, meu irmão pôs-se em pé na cadeira.

A minha figura não era propriamente a de uma rapariga doce, o meu vestido estava encharcado de suor e a antiga cor cinzenta tinha sido substituída por um castanho terra. O meu pai levantou-se e com uma voz de quem sabe o que está a dizer – “Tailla junta o jantar no tacho, comemos pelo caminho, Lhara ajuda-me a preparar a carroça. Gaine sem fazer asneiras vai ao teu quarto e traz roupa para ti, depressa.”

Pouco tempo depois estávamos a caminho de Saiune, todos sentados na carroça com a comida nas mãos. Dentro de vinte minutos estaríamos no velho salão de reuniões, onde Sir Frederik o regente da nossa aldeia, um antigo combatente da Guarda da Rainha explicaria o que se estava a passar. Quem seriam aqueles homens dos barcos com velas vermelhas? Donde é que eles vieram? O que é que eles querem? Estamos em perigo? Tinha a certeza que a minha voz também ia ser ouvida esta noite.

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