LIFELINE

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LIFELINE

 

Capitulo 1

 

Niifh

O mar estava calmo, com pequenas ondas de espuma que tocavam a areia com uma delicadeza de uma noite em pleno verão.

A praia estava vazia, como se à espera que algo a preenchesse. O grasnar das gaivotas davam a entender que o tempo ia ter que lutar para se manter assim. O penhasco limitava a entrada Sul da praia, era um maciço de pedra com mais de duzentos metros de altura, com um pequeno caminho sinuoso, que serpenteava na escarpa do penhasco. Um grande pontão delineava a zona Oeste da praia, construído pelo tempo, pela erosão e pela força do mar, estendia-se a quinhentos metros de terra cortando as ondas com a precisão de um machado imponente, intransponível. A Este a praia estendia-se por uns longos quilómetros até a primeira povoação costeira.

Era a terceira vez que os sonhos me impediam de dormir, e que me levavam até esta praia. Em todas as versões do sonho era um dia calmo, sem nuvens, sem ondas, perfeito para navegar em águas baixas. O horizonte brotava pequenas gotas vermelhas, que contaminam o oceano, enquanto se dirigem para a praia. As gotas tornaram-se mais visíveis, a evidência era clara, os sonhos eram claros, a certeza de que não era novamente o mesmo sonho terminou no momento em que o ruído do mar deixou de se ouvir. O barulho de vozes que entoavam ritmicamente ordens de remada substituiu o som monocórdico do mar.

As gaivotas grasnavam com esta nova ameaça ao seu sossego, as parcas nuvens que agora se viam no céu, pareciam ter-se formado ao ritmo imposto pelos remadores. O horizonte era agora uma linha irrelevante face às centenas de pequenos barcos que se aproximavam da praia.

Um som profundo distinguia-se, o calor parecia ter também aumentado, aos poucos apercebi-me que gotas de suor pingavam pelas costas, e que no meu peito pareciam estar alojados uma dezena daqueles remadores, tal era a força com que a adrenalina se infiltrava no meu coração.

Esta sensação não era nova, no entanto, esta situação era única. Foram precisos alguns segundos para me aperceber que o primeiro barco tocava agora a areia, e que em breve centenas, se não milhares, de guerreiros estariam apenas a alguns quilómetros de Saiune.

A aldeia de Saiune não é mais que um pequeno aglomerado de quintas, pescadores, caçadores e antigos marinheiros, presos no tempo, ou simplesmente à espera que o tempo viesse até eles.

O que fazia de Saiune uma aldeia eram os edifícios centrais que unificavam estas famílias, ou estes lobos solitários. Um desses edifícios construído em madeira escura pintado de um leve verde tinha as janelas altas e espaçadas, os dois andares faziam-no ser um edifício imponente. Mestre Flavian era um estalajadeiro de grandes proporções, levava a cabo a sua missão de entreter os que restavam muito a peito, e recebia todos os forasteiros com um sorriso e uma exagerada vénia. Um grande celeiro dava apoio à estalagem do Porco Saltimbanco servindo como armazém e como estabulo, nesta altura apenas um cavalo se encontrava no estábulo, era branco encorpado mas ainda bastante jovem, o nome dele era Mancha .

O outro edifício, o Concelho, era um antigo armazém de peixe, transformado num polido e massivo edifício, tinha dois andares e umas águas furtadas onde uma pequena torre de cor grená sobressaia, assim como um grande sino de bronze, que se tocava quando havia reuniões de concelho. Sir Frederik, antigo escudeiro da guarda da Rainha, era o regente de Saiune, era o responsável por todas as famílias e quintas da zona. O seu cabelo grisalho não deixava escapar que a sua idade já era bem avançada, mas não era suficiente para que estas pessoas perdessem qualquer respeito pela sua pessoa, afinal ele tinha pertencido á Guarda da Rainha.

As reuniões de concelho eram um misto de teatro com debate, dependendo das histórias que os forasteiros contavam quando passavam pela aldeia.

O mercado de Saiune era outro local que representava a verdadeira aldeia. Neste local que os pescadores vendiam o seu peixe fresco, que os caçadores apresentavam toda a sua perícia nas diversas espécies caçadas nos arredores e que os agricultores trocavam o suor do seu trabalho por bens materiais para a sobrevivência das suas colheitas.

Havia muito mais para contar sobre Saiune, mas as pernas moviam-se à velocidade de um tufão enfurecido que não vê obstáculos. A aldeia é muito mais que umas casas perdidas, que edifício sem significados, o espírito das pessoas está impregnado com vontade, com espírito, com sacrifício, com fé. O meu raciocínio estava lentamente a perder o controlo lutando contra o esforço que era correr pela encosta acima. Queria parar e respirar, queria parar e beber todo o conteúdo do meu odre de água, queria acordar deste sonho, ou pelo menos acreditar que era um sonho.

Mas não era. Mestre Gibson, o curtidor de peles foi quem avistei primeiro, e em sinal de histeria lancei-me para os seus braços, tentando dizer tudo ao mesmo tempo, “Praia… barco… homens… fogo… correr… avisar…”, tudo… mas nada soava a concreto. Mestre Gibson, preocupado olhava para mim com uma expressão intrigada, pedindo para manter a calma.

“Respira Niifh. O que se passa?” – a sua mão dirigiu-se para o meu odre, incitando-me a beber. Enxerguei dois goles, seguidos de um engasgamento que me provocou um ataque de tosse convulsivo.

Poucos segundos depois um rapaz alto, moreno com uma enxada na mão e um pão no outro, aproximava-se e com um sorriso trocista e grita “Niifh voltaste? Pensava que te tinhas ido embora de vez! Prendeste bem o burro? – expeliu uma gargalhada bastante sonora e segue o seu caminho sem dar nenhuma atenção à situação, sem ter consciência da grandeza dos acontecimentos que estavam prontos a despoletar, do caos que estava a ser tricotado.

O grande sino de bronze tocava incessantemente, tal era a importância pela qual estava a ser badalado, Sir Frederik embalado na dança do sino gritava entre batidas. O aglomerado de pessoas era já bastante grande, fazia lembrar os dias da Festa do Crepúsculo, que celebramos quando o Inverno está a chegar, para louvar o Criador para proteger as colheitas contra o gelo invernal, onde há comida e bebida e muita disposição para ouvir e contar historias, algumas delas já ultrapassadas pelo tempo.

Perto do poço central, onde o grande mercado costuma estar, um mar de gente amontoado juntava-se e iniciava o ciclo dos rumores, as conversas cruzavam-se incessantemente e o barulho começava a aumentar. Era impossível fazer entrar todas estas pessoas para uma reunião no grande salão, o tempo encolhia para um assunto de extrema importância.

Lhara

O dia começou escuro, hábito de quem se levanta cedo para iniciar o seu dia de trabalho. A água estava gelada, óptima para libertar o sono. Uma malga de leite de cabra com açúcar de cana e alguns grãos de café moídos era o par perfeito para um bom pão de centeio caseiro.

Com os meus pais ainda no quarto, estes momentos eram o mais saboroso do dia, o sonhar acordada permitia-me ver as imagens de viver numa cabana no monte perto da falésia com um bom marido, um par de crianças endiabradas a correrem pelo prado a rebolarem encosta a baixo. Faz-me sorrir nestas manhãs escuras.

O trabalho de uma quinta era rotineiro, calmo num sentido sublime entendido apenas por quem desfruta de uma vida no campo, no entanto era duro, cruel para alguns e pouco compensador para a maioria.

O mercado de Saiune aceitava duas moedas, a troca directa de produtos feita através do acordo entre os mercantes, ou a moeda da Rainha, mas esta era essencialmente de bronze. Eram raras as moedas de prata ou ouro em Saiune, somente os forasteiros de grandes viagens e aventuras as traziam, e davam sempre grandes dores de cabeça aos mercadores, pois nem sempre era possível trocar ouro por prata, e muito menos por bronze.

Sai para a manhã escura, o tempo estava ameno e prometia um dia de verão, caminhava pela pequena estrada da quinta que circundava os terrenos da família, levava apenas um cesto de vime, trazia um vestido cinzento comprido que me roçava nos tornozelos e nas presilhas das minhas velhas sandálias de couro. A rotina seria simples, uns ovos do galinheiro, leite das cabras, as couves e as cenouras perto do poço.

O problema não era ir até aos locais e fazer o que tinha de ser feito, o problema era haver alguma coisa. Isso sucedia muitos dos dias, nesses o trabalho era regar, alimentar e passear as cabras. Se tudo corresse bem, se nenhuma cabra se perdesse o dia não estaria perdido.

A tarde era passada no recinto do mercado, perto do poço central de Saiune, as trocas eram feitas por quem tinha tido a sorte de esperar até ao dia certo, outros menos perspicazes traziam os seus produtos, pequenos, verdes ou mirrados. As trocas sucediam-se durante horas, quem não tinha produtos para trocar, como era o meu caso, trocava serviços, lavar o chão, colher batatas, cozer roupa, entre muitos outros ofícios que podiam ser feitos por muita gente em troca de comida para a família.

Mestre Flavian acenou-me ao longe assim que me viu chegar com as mãos vazias duma manhã trabalhosa. Os meus pés doíam de ter andado quilómetros com as cabras e de ter carregado os fardos para o celeiro. Apesar de lavado, o meu vestido estava já bastante desalinhado e os meus cabelos eram tudo menos penteados, com algumas palhas e pequenas ervas à mistura parecia que tinha mergulhado numa pilha de folhas outonais. Sacudi o vestido e tentei apanhar o cabelo enquanto me dirigia para a estalagem.

A estalagem de Mestre Flavian era cheia de histórias, e sempre com clientela. Os forasteiros sabiam da boa qualidade do Porco Saltimbanco e consideravam a estalagem um ponto obrigatório da sua viagem. Por vezes, eu e algumas das raparigas da aldeia ficava-mos à espreita nas janelas do salão, para ver os visitantes e por vezes apareciam alguns bem interessantes. Só olhar para a estalagem fazia-me sonhar que um forasteiro sairia por aquela porta e acenaria como se eu fosse uma dama nobre, pouco depois traria um cavalo branco esplendoroso pelas rédeas e pedir-me-ia a mão para me ajudar a subir. Cavalgaria com ele até bem longe, até um castelo de fantasia, com grandes torres e muitas bandeiras, com muita gente, e muita cor, a cada novo olhar encontraria uma pessoa nova, os guerreiros fardados a rigor com suas grandes espadas faziam uma vénia quando me vissem passar eu acenava e via-me corar.

Um assobio estridente, fez-me despertar do meu sonho andante, Mestre Flavian com as mãos nas ancas, praguejava. O rubor subiu-me às faces, apressei-me com o laço nos meus cabelos e acelerei a minha marcha. À porta do Porco Saltimbanco, Mestre Flavian deitou-me um olhar inquisidor – “Não tiveste sorte hoje, Lhara? – sacudi um pouco o vestido, e olhei para Mestre Flavian com um ar pequeno, assustado e triste. “Não te preocupes minha filha, pois preciso de ti! Anda, entra, vai-te lavar e vem ter comigo à cozinha.” O acordo era simples e fácil, Aine a sua filha e ajudante na estalagem, estava grávida e precisava de um pequeno descanso, o meu trabalho era o de lavar os pratos do almoço e preparar a loiça para o jantar, em troca receberia dois pães e uma bilha de cerveja.

A tarde passou num ápice, a quantidade enorme de loiça era uma tarefa bastante fácil comparada com o lavar do celeiro, ou uma tarde a apanhar batatas ao sol. Sai a correr da estalagem e dirigi-me para o caminho que ia dar à praia mesmo antes do grande sol alaranjado se derreter contra as águas geladas do oceano. Encontrava-me no ponto mais alto da falésia, a praia era grande, a areia era branca como a neve, e as ondas de um azul claro espumoso que reflectia os últimos raios solares. Contemplei a paisagem no seu todo, olhei o grande pontão, onde os pescadores normalmente se juntavam para trazer o bom peixe de Saiune. As ondas eram pequenas mas acariciavam o pontão com uma certeza repetida. O mar estava calmo, como numa noite de verão. Algumas gaivotas passeavam calmamente pela praia, debicavam a areia, voavam, lançavam-se ao mar, como se fossem donas do céu, do mar e da terra, eram imperturbáveis.

O meu olhar seguiu uma gaivota que tinha a cabeça escura, o seu voo passou por cima do pontão e começou a dirigir-se para Este, a trajectória ia ao encontro da continuação do areal branco e imaculado. Um barco com velas vermelhas apareceu no horizonte, e logo a seguir, um barco transformou-se em dezenas, em centenas, e as gaivotas deixaram de ser importantes.

Corri para a quinta para avisar os meus pais, ainda era uma corrida longa. Arregacei o vestido, sentia a noite a chegar, a escuridão espalhava-se depressa assim que o grande vermelho entrou na água e deu lugar à Lua, o seu lugar no céu. Era um pensamento fútil tendo em conta a razão porque continuava a correr. A quinta já não era muito longe, o caminho fazia uma grande curva perto da Quinta das Abóboras, subia o monte dos Eucaliptos até a Fonte Riscada e depois era uma longa descida até casa.

A Quinta das Abóboras era pequena em comparação com a dos meus pais, a Quinta do Feno Ondulante, no entanto, tinha o seu encanto. A quantidade enorme de abóboras dava o nome à quinta dos pais de Krish, eles tinham uma casa simples, um celeiro azulado e uma grande quantidade de espantalhos de palha espalhados pela quinta, que davam um aspecto assustador principalmente à noite. O Monte dos Eucaliptos ficava perto da curva rochosa, dali conseguia ver a praia distante, onde as centenas de barcos já deviam estar na praia.

Apesar de já não conseguir correr, acelerei o passo para chegar ao topo do Monte dos Eucaliptos onde a Fonte Riscada se encontrava, e onde podia ver o desenvolvimento dos acontecimentos. Já tinham passado um quarto de hora desde que o sol se tinha posto e que os barcos tinham chegado.

Sentada na borda da Fonte Riscada, recuperava o meu fôlego, limpava a testa do suor e via ao longe na praia, centenas de homens fardados de vermelho, montando grandes tendas e transportando caixas dos barcos para a praia. A minha respiração abrandou, e senti que tinha de continuar para puder contar o que se estava a passar.

Comecei a descer a colina do Monte dos Eucaliptos, em breve estaria em casa. No instante a seguir comecei a ouvir ao longe o eco de um metálico, algo que me lembrava as festas da aldeia, o cheiro de carne grelhada e as imagens de pessoas sorridentes a dançar por toda a zona do mercado. Mas o tempo não era de festas, e as batidas incessantes, levavam-me a crer, que não era a única que estaria a par do que se estava a passar. O cansaço começou a aproximar-se ao mesmo tempo que as luzes da quinta ficaram visíveis após a curva. O cheiro a carne cozinhada era intenso, o fumo que saia da chaminé indicava que o jantar estava quase pronto.

A entrada principal, que dava para a estrada, estava arranjada, as flores amarelas plantadas perto da porta, faziam sobressair os lilases da entrada. Não parei o tempo suficiente para absorver as cores que os canteiros da casa ofereciam. Abri a porta de rompante, Sear, meu pai, estava sentado à mesa com a saladeira na mão, minha mãe, Tailla, trazia um tacho, provavelmente com batatas cozidas, o meu pequeno irmão Gaine estava já sentado com um garfo na mão e com um pedaço de bife no prato. Gritei, sem medir o som da minha voz – “Barcos na praia, centenas com bandeiras vermelhas a montarem campo. O sino da aldeia está a tocar. Temos que ir!” – as minhas palavras foram geradoras de confusão, minha mãe deixou as batatas caírem no chão, com um grito de susto, o meu pai, bateu na mesa com o punho, meu irmão pôs-se em pé na cadeira.

A minha figura não era propriamente a de uma rapariga doce, o meu vestido estava encharcado de suor e a antiga cor cinzenta tinha sido substituída por um castanho terra. O meu pai levantou-se e com uma voz de quem sabe o que está a dizer – “Tailla junta o jantar no tacho, comemos pelo caminho, Lhara ajuda-me a preparar a carroça. Gaine sem fazer asneiras vai ao teu quarto e traz roupa para ti, depressa.”

Pouco tempo depois estávamos a caminho de Saiune, todos sentados na carroça com a comida nas mãos. Dentro de vinte minutos estaríamos no velho salão de reuniões, onde Sir Frederik o regente da nossa aldeia, um antigo combatente da Guarda da Rainha explicaria o que se estava a passar. Quem seriam aqueles homens dos barcos com velas vermelhas? Donde é que eles vieram? O que é que eles querem? Estamos em perigo? Tinha a certeza que a minha voz também ia ser ouvida esta noite.

 Runngar

A encosta era bastante íngreme, com algumas rochas e buracos lamacentos pelo meio. Era um desafio interessante, embora perigoso. Krish estava ao meu lado, ansioso pela partida, tal como eu.

Sempre fui mais atlético que Krish desde que Sir Frederik me acolheu para ser o seu escudeiro. Tratei da sua montada “Mancha” um cavalo bastante inteligente e cheio de personalidade, limpei os estábulos, empilhei caixotes, arrumei a sala de reuniões, entre muitas outras tarefas que me eram delegadas. Para no fim, sempre que possível ter a hipótese de treinar com Sir Frederik. Desde então considerava-me bastante bom no manuseamento da espada, as minhas capacidades atléticas estavam cada vez melhor. Mas no entanto, Krish era um ás com a vara, apesar da sua débil figura, franzino com os cabelos esgadelhados, e a sua roupa alaranjada.

Era sempre um desafio, apostar com Krish em algo que pudesse enaltecer a minha força e agilidade. “Estas pronto, Runngar?” – gritou Krish, anui com a cabeça e com um sorriso concentrado, “1, 2, e 3…” e começamos a correr em direção á encosta, não parei um segundo para pensar no caminho que iria fazer para descer a escarpa, comecei a saltar de pedra em pedra com Krish no meu encalso, a paisagem era simplesmente assustadora. Num breve segundo cheguei a plataforma, coloquei-me de barriga e devagar deixei-me escorregar, senti a força dos meus braços a falhar mas tinha que aguentar ate conseguir sentir o solo novamente, olhei para baixo entre os meus braços esticados, era um salto de pouco mais de meio metro mas se me desequilibrasse teria que me desenterrar da areia da praia. Sem pensar mais, e também porque já não me conseguia aguentar, deixei-me deslizar, consciente que tinha que me encostar imediatamente a parede da rocha. Senti um fluxo de adrenalina a chegar á cabeça, a queda demorou eternidades, toquei com os pes no chão e ja não pensava em nada, totalmente absorto com o coração aos saltos, após me encostar á parede.

Barcos, barcos, muitos barcos, quase automaticamente falhou-me uma golfada de ar, tossi até sentir os pulmões cheios novamente. Sinto uma mão a puxar-me do meu desequilibrio fatal. “Estas bem? Concentra-te! Um passo em falso e é morte certa!” Apontei para o horizonte, “Isto não é nada bom… temos que voltar depressa e avisar a aldeia… Aliás… Tu tens que voltar… Só hà duas maneiras de sair daqui, uma delas está fora de questão, descer para a praia. A outra é voltar por onde viermos, e tu não tens força para me levantar nem me puxar. Eu elevo-te e tu corres como nunca correste…” – olhei novamente os barcos que se aproximavam da costa, os barcos ao longe assemelhavam-se a espadas de dois gumes a cortar as ondas como se fossem manteiga.

“Mas, e tu? Não conseguirás sair daqui…”

“Isso agora não interessa, pensa na tua irmã pequena… não estará viva se continuares a questionar-me… vai… avisa os outros, avisa Sir Frederick, encontramo-nos no Bosque Escuro, no sitio do costume.” Krish virou-se de modo a agarrar a borda do precipício, com um pouco de apoio, subiu num instante, olhou uma última vez para baixo, gritei “Corre!”.

Fiquei a olhar a chegada dos barcos, não eram poucos. Os barcos eram pequenos, rapidos, cada um deveria ter vinte soldados. Cada soldado tinha o que parecia ser uma cota de malha, sob uma túnica vermelha, espadas á cintura e o que parecia ser uma alabarda. A organização deste exército era imensa, o que implicava uma disciplina e rigor de treino muito grande, à medida que os barcos atracaram, quatro elementos saiam dos barcos e puxavam o barco para a margem, enquanto os soldados largavam os remos e pegavam nas alabardas. Assim que o barco tocava a areia, os soldados saltavam e alinhavam-se á frente do barco, um deles colocava uma bandeira na areia após se organizarem.

Ao fundo um barco maior ondulava sem avançar, provavelmente um posto de comando do exército. Um barco pequeno foi descido através de uns mecanismos que não conseguia perceber. Após chegar á margem, vários homens vestidos de negro desembarcaram, estes não tinham alabardas, aliás, não consegui entender se tinham qualquer tipo de arma, mas no entanto, pareciam ser muito importantes.

A minha curiosidade aumentava, e só havia uma solução agora, descer até á praia, saber mais sobre este exército, e fugir sem ser visto. Parecia um plano simples mas não menos complexo.

 

Capitulo 2

Runngar

Iniciei a descida pelas rochas, não me sentia receoso de cair, mas sim de atrair atenções indesejadas. Sempre que podia, encostava-me às rochas e observava as alterações á multidão que continuava a aumentar. Tendas foram montadas, fogos foram acesos, a noite tinha chegado juntamente com o frio gélido trazido pelo mar. Os barcos foram virados ao contrário, de modo a fazerem uma espécie de abrigo para o material, as bandeiras estavam colocadas na periferia do acampamento.

Uma das tendas sobressaia, grande e espaçosa, não tinha guardas na entrada, e no entanto, era demasiado imponente para ser mais uma tenda de material. Os homens de negro entraram nela, alguns saiam, outros entravam num corropio organizado.

Os vigias rondavam o acampamento usando arcos a tiracolo e archotes na mão. Tinha que ponderar cada passo, para não chamar a atenção.

No mar estava tudo calmo, mas a juntar-se ao grande barco estavam agora o que pareciam umas quatro barcaças compridas com muitos remos e com velas altas, diria que seria um barco bastante veloz ao vento, e com muitos remadores quando o mar permitia.

A luz de archotes a serem acendidos junto á grande tenda dos homens de negro fez-se notar, comecei a contar, “1,2,3,4,5… 10… 15…20”, vinte homens de negro com archotes, e grandes lâminas nas costas. Alguns levavam bestas armadas… “Eles vão atacar a aldeia durante a noite… serão todos chacinados se Krish não chegar a tempo…”

Perdi-me neste pensamento fatalista, a olhar para o mar na escuridão, com a grande Lua a iluminar os barcos. Ouvi barulhos vindos do acampamento, provavelmente o exercito assassino iria partir, virei a cabeça no exato momento em que uma seta passa a zumbir perto do meu ombro, movi-me depressa, para evitar novo ataque, mas foi depressa demais, fiz o meu pé escorregar numa reentrância da rocha, e antevi o pior.

Lhara

Estava tudo demasiado silêncioso para meu gosto. Ouvir e calar, não era propriamente o que me tinham ensinado. Levantei-me assim que Sir Frederik pediu para fechar as portas do grande Salão. “Sir…” e muitas caras conhecidas viraram-se para mim, como esperançados que a sua timidez fosse canalizada para a força da dúvida de todos, “… estamos todos assustados. Precisamos de saber o que fazer para manter as nossas famílias seguras!” Olhei em volta, e todos retribuíam com um olhar de sincero agradecimento. Sir Frederik anuiu e fazendo um gesto de calma, tomou a palavra.

“Amigos, estamos juntos á muito tempo e passamos por muita coisa. Após ter sido informado destes últimos acontecimentos por Niifh, pedi a alguns dos guardas para formarem uma equipa de batedores para conseguirmos o máximo de informações, mas até agora nada, temo que possa ter acontecido o pior. Os números destes invasores são grandes e não sabemos o que planeiam nem o que pretendem da nossa casa. Não vos vou pedir para sacrificarem a vossa vida a defender a aldeia, mas também não os obrigarei a fugir. A escolha está com vocês.” Alguns sussurros e choros, interrompidos com a voz serena de Niifh “Mas, Sir Frederick. Se partirmos agora levando o menos possível poderíamos avisar as povoações mais perto, e com certeza que teríamos tempo para chegar a Fort Joriel e protegermo-nos atrás das muralhas.”

Após alguma gritaria e desabafos num imenso caos, o sino tocou. Alguém se aproximava do perímetro da reunião, com a rapida mobilização dos guardas para as portas interiores, todos se aperceberam que era alguem dos nossos. Mas quem faltava aqui? Comecei a olhar as cabeças dos que me rodeavam. Os guardas abriram as portas.

Krish

Corri, sem pensar, apenas com o objetivo de alcançar Saiune e conseguir avisar Sir Frederik do que se estava a passar na praia.

Assim que avistei o edificio central, comecei a ouvir os sinos, os poucos guardas de Saiune já estavam reunidos e as ruas pareciam-me silenciosas, senti por breves momentos um sentimento de esperança.

Os portões abriram e os guardas fizeram sinal para entrar. Toda a aldeia estava reunida, e esperavam ansiosamente por alguma novidade que pudesse trazer.

Sir Frederik foi o primeiro a falar “Krish… onde estiveste? Tocamos os sinos durante tanto tempo…”. Estava sem folego, e a minha expressão era de extremo cansaço, pedi um minuto, respirei fundo “Runngar… ficou nas rochas junto á praia, não consegue subir…”

O pai de Runngar avançou para mim, “Obrigado filho, por teres vindo a correr para ajudares o teu amigo! Sir Frederik farei o caminho até à praia para ajudar o meu filho.”

“Eu tambem vou consigo, Fanngar.” Niifh avançou para perto do enorme pai de Runngar. “Eu mostro-vos onde ele está!” disse sem hesitar, colocando-me direito.

Lhara fez um movimento como se quisesse ficar para ajudar, vi a cara dela de preocupação. “Lhara, encontramo-nos no nosso sitio, depois de todos estarem a caminho de um local seguro.”

Sir Frederik puxou da espada que tinha a tiracolo e avançou para Fanngar, “Meu caro, toma podes precisar!”

E o pequeno grupo saiu…

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