Lifeline – Web of souls – Post NaNoWriMo

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=== 1st Chapter – Invaders at bay ===

— Gaine —
Acordei com uma ligeira dor no peito. o braço esquerdo completamente dormente, não o sentia… sentia também uma dificuldade para respirar… Expirar e inspirar fazia com que esta dor aumentasse…

Era noite profunda, e o silencio tinha sido substituído pelos grilos barulhentos da quinta. Abanei a cabeça para tentar perceber o que me tinha acordado, tomei consciência das sombras que a luz da lua deixava no quarto.

A dor não passava… pus a mão no peito e senti o meu coração acelerado, não era normal, o meu sinal no peito estava a pulsar, parecia ter aumentado. Desde pequeno que tinha uma mancha no peito uma forma disforme ligeiramente avermelhada, assemelhava-se a uma queimadura algo extensa, mas os meus pais assegurara-me que nascera com o sinal.

Mas era a primeira vez que sentia que a dor vinha do peito, o meu braço esquerdo nem sequer mexia, o sinal parecia estar em sangue, continuava a escurecer, parecia que estava a formar uma bolha como se fosse rebentar, parei o reflexo de querer gritar, tapei a boca, mas foi mais forte… a medida que a dor aumentava, tornou-se impossível suster o som que prendia com os dedos… e num instante senti o fluxo de energia das minhas cordas vocais a escaparem-se pelos meus frágeis dedos… incapazes… inúteis ate para esta tarefa fútil… o grito foi seguido de outro, e outro, porque a dor não parava, não conseguia entender o que se passava comigo, nem força tinha para chorar da dor. Foi então que a cicatriz deu de si, senti como que algo estivesse a penetrar em mim, do meu peito saiam o que parecia linhas vermelhas, sangrentas e enormes … e tudo ficou branco…
— Niifh —
O sol estava a nascer, era uma noite comum, mas a terceira vez que os sonhos me impediam de dormir, e que mais uma vez me levavam até esta praia, estava um dia calmo, sem nuvens, sem ondas, perfeito para navegar em águas baixas.
O penhasco limitava a entrada Sul da praia, era um maciço de pedra com mais de duzentos metros de altura, com um pequeno caminho sinuoso, que serpenteava na escarpa do penhasco. Um grande pontão delineava a zona Oeste da praia, construído pelo tempo, pela erosão e pela força do mar, estendia-se a quinhentos metros de terra cortando as ondas com a precisão de um machado imponente, intransponível. A Este a praia estendia-se por uns longos quilómetros até a primeira povoação costeira.
O horizonte brotava pequenas gotas vermelhas, que contaminavam o oceano, enquanto se dirigem para a praia. As gotas tornaram-se mais visíveis, a evidência era clara, os sonhos eram claros, a certeza de que não era novamente o mesmo sonho terminou no momento em que o ruído do mar deixou de se ouvir.
O barulho de vozes que entoavam ritmicamente ordens de remada substituiu o som monocórdico do mar.
As gaivotas grasnavam com esta nova ameaça ao seu sossego, as parcas nuvens que agora se viam no céu, pareciam ter-se formado ao ritmo imposto pelos remadores. O horizonte era agora uma linha irrelevante face às centenas de pequenos barcos que se aproximavam da praia.
Um som profundo distinguia-se, o calor parecia ter também aumentado, aos poucos apercebi-me que gotas de suor pingavam pelas costas, e que no meu peito pareciam estar alojados uma dezena daqueles remadores, tal era a força com que a adrenalina se infiltrava no meu coração.
Foram precisos alguns segundos para me aperceber que o primeiro barco tocava agora a areia, e que em breve centenas, se não milhares, de guerreiros estariam apenas a alguns quilómetros de Saiune.
A aldeia de Saiune não era mais que um pequeno aglomerado de quintas, pescadores, caçadores e antigos marinheiros, presos no tempo, ou simplesmente à espera que o tempo viesse até eles.
O que fazia de Saiune uma aldeia eram os edifícios centrais que unificavam estas famílias, ou estes lobos solitários. Mestre Flavian era um estalajadeiro de grandes proporções, levava a cabo a sua missão de entreter os que restavam muito a peito, e recebia todos os forasteiros com um sorriso e uma exagerada vénia. Um grande celeiro dava apoio à estalagem do Porco Saltimbanco servindo como armazém e como estabulo, nesta altura apenas um cavalo se encontrava no estábulo, era branco encorpado mas ainda bastante jovem, o nome dele era Mancha .
O outro edifício, o Concelho, era um antigo armazém de peixe, transformado num polido e massivo edifício, onde uma pequena torre com um grande sino de bronze sobressaia. Sir Frederik, antigo escudeiro da guarda da Rainha, era o regente de Saiune, era o responsável por todas as famílias e quintas da zona.
O mercado de Saiune era outro local que representava a verdadeira aldeia. Neste local que os pescadores vendiam o seu peixe fresco, que os caçadores apresentavam toda a sua perícia nas diversas espécies caçadas nos arredores e que os agricultores trocavam o suor do seu trabalho por bens materiais para a sobrevivência das suas colheitas.
Havia muito mais para contar sobre Saiune, mas as pernas moviam-se à velocidade de um tufão enfurecido que não vê obstáculos. A aldeia era muito mais do que casas perdidas, ou edifício sem significados, o espírito das pessoas está impregnado com vontade, com espírito, com sacrifício, com fé.
O meu raciocínio estava lentamente a perder o controlo lutando contra o esforço que era correr pela encosta acima. Queria parar e respirar, queria parar e beber todo o conteúdo do meu odre de água, queria acordar deste sonho, ou pelo menos acreditar que era um sonho.
Mas não era. Mestre Gibson, o curtidor de peles foi quem avistei primeiro, e em sinal de histeria lancei-me aos seus pés, tentando dizer tudo ao mesmo tempo, “Praia… barco… homens… fogo… correr… avisar…”, tudo… mas nada soava a concreto. Mestre Gibson, preocupado olhava para mim com uma expressão intrigada, pedindo para manter a calma.
“Respira Niifh. O que se passa?” – a sua mão dirigiu-se para o meu odre, incitando-me a beber. Enxerguei dois goles, seguidos de um engasgamento que me provocou um ataque de tosse convulsivo.
Poucos segundos depois um rapaz alto aproximou-se com um sorriso trocista e gritou “Niifh voltaste? Pensava que te tinhas ido embora de vez! Prendeste bem o burro?” expeliu uma gargalhada bastante sonora e segue o seu caminho sem dar nenhuma atenção à situação, sem ter consciência da grandeza dos acontecimentos que estavam prontos a despoletar, do caos que estava a ser tricotado.

— Lhara —
O grande sino de bronze tocava incessantemente, tal era a importância pela qual estava a ser badalado, Sir Frederik embalado na dança do sino gritava entre batidas. O aglomerado de pessoas era já bastante grande, fazia lembrar os dias da Festa do Crepúsculo, que celebramos quando o Inverno está a chegar, para louvar o Criador para proteger as colheitas contra o gelo invernal, onde há comida e bebida e muita disposição para ouvir e contar historias, algumas delas já ultrapassadas pelo tempo.
Perto do poço central, onde o grande mercado costuma estar, um mar de gente amontoado juntava-se e iniciava o ciclo dos rumores, as conversas cruzavam-se incessantemente e o barulho começava a aumentar. Era impossível fazer entrar todas estas pessoas para uma reunião no grande salão, o tempo encolhia para um assunto de extrema importância. Corri para casa para ajudar a minha família.

Abri a porta de rompante, Sear, meu pai, estava sentado à mesa com a saladeira na mão, minha mãe, Tailla, trazia um tacho, provavelmente com batatas cozidas, o meu irmão Gaine estava já sentado com um garfo na mão e com um pedaço de bife no prato. Gritei, sem medir o som da minha voz – “Barcos na praia, centenas … bandeiras vermelhas … O sino da aldeia está a tocar. Temos que ir!” – as minhas palavras foram geradoras de confusão, minha mãe deixou as batatas caírem no chão, com um grito de susto, o meu pai, bateu na mesa com o punho, meu irmão pôs-se em pé na cadeira.

A minha figura não era propriamente a de uma rapariga doce, o meu vestido estava encharcado de suor e a antiga cor cinzenta tinha sido substituída por um castanho terra. O meu pai levantou-se e com uma voz de quem sabe o que está a dizer
– Tailla junta o jantar no tacho, comemos pelo caminho, Lhara ajuda-me a preparar a carroça. Gaine, Gaine, Gaineeee vai ao teu quarto e traz algumas roupas para ti, depressa. – gritou o meu pai.

Tinham passado dois dias desde que Gaine acordara toda a quinta com os seus pesadelos, desde então tem andado muito estranho, muito distante, pouco falador, olha-nos com outros olhos, diz coisas sem sentido e torna-se mesmo ausente.

Pouco tempo depois estávamos a caminho de Saiune, todos sentados na carroça com a comida nas mãos. Dentro de vinte minutos estaríamos no velho salão de reuniões, onde Sir Frederik o regente da nossa aldeia, um antigo combatente da Guarda da Rainha explicaria o que se estava a passar. Quem seriam aqueles homens dos barcos com velas vermelhas? Donde é que eles vieram? O que é que eles querem? Estamos em perigo? Tinha a certeza que a minha voz também ia ser ouvida esta noite.

— Runngar —
A encosta era bastante íngreme, com algumas rochas e buracos lamacentos pelo meio. Krish estava ao meu lado, sempre fui mais atlético que Krish desde que Sir Frederik me acolheu para ser o seu escudeiro. Tratei da sua montada “Mancha” um cavalo bastante inteligente e cheio de personalidade, limpei os estábulos, empilhei caixotes, arrumei a sala de reuniões, entre muitas outras tarefas que me eram delegadas. Para no fim, sempre que possível ter a hipótese de treinar com Sir Frederik. Desde então considerava-me bastante bom no manuseamento da espada, mas preferia o machado. Mas no entanto, Krish era um ás com a vara, apesar da sua débil figura, franzino com os cabelos esgadelhados, e a sua roupa alaranjada.
O sino da aldeia tinha tocado a algum tempo, mas os rumores esses chamaram-nos ate aqui, era impossivel resistir á curiosidade de ver estes intrusos a chegar. A palavra de Niifh chegou e espalhou-se como a poeira, cada um acrescentava mais qualquer coisa e no fim de contas, quem não queria ir ver dragões e lagartos de duas cabeças?
Chegamos ao promontório, as pedras que estavam á nossa frente eram um pequeno obstáculo, o mais dificil seria não ser visto. Subimos as rochas e espreitamos, a quantidade de homens armados era extraordinaria, barcos virados ao contrario a fazerem de abrigo, tendas montadas, bandeiras hasteadas era algo nunca visto.
Agilmente Niifh alcançou facilmente a plataforma, coloquei-me de barriga e devagar deixei-me escorregar, olhei para baixo entre os meus braços esticados, era um salto de pouco mais de meio metro mas se me desequilibrasse teria que me desenterrar da areia da praia. Senti um fluxo de adrenalina a chegar á cabeça, a queda parecia demorar eternidades, toquei com os pes no chão e ja não pensava em nada, totalmente absorto com o coração aos saltos, após me encostar á parede.
Fiquei a olhar a praia, o acampamento estva montado, ao fundo um barco maior ondulava sem avançar, provavelmente um posto de comando do exército. Um barco pequeno foi descido através de uns mecanismos que não conseguia perceber. Após chegar á margem, vários homens vestidos de negro desembarcaram, estes não tinham alabardas, aliás, não consegui entender se tinham qualquer tipo de arma, mas no entanto, pareciam ser muito importantes.
Uma das tendas sobressaia, grande e espaçosa, não tinha guardas na entrada, e no entanto, era demasiado imponente para ser mais uma tenda de material. Os homens de negro entraram nela, alguns saiam, outros entravam num corropio organizado.
A luz de archotes a serem acendidos junto á grande tenda dos homens de negro fez-se notar, comecei a contar, “1,2,3,4,5… 10… 15…20” vinte homens de negro alguns com grandes lâminas nas costas outros levavam bestas.
“Eles vão atacar a aldeia durante a noite…” – Niifh apontou para o acampamento. “Isto não é nada bom… Temos que voltar depressa e avisar a aldeia…” Apertei-lhe os ombros “Aliás… Tu tens que voltar… Só hà duas maneiras de sair daqui, descer para a praia ou voltar por onde viermos, tu não tens força para me levantar nem me puxar. Mas eu posso elevar-te e tu corres como nunca correste…”
“Mas, e tu? Não conseguirás sair daqui…” Niifh olhou para mim com preocupação.
“Isso agora não interessa, pensa na tua irmã pequena… não estará viva se continuares a questionar-me… vai… avisa os outros, avisa Sir Frederick, encontramo-nos no Bosque Escuro, no sitio do costume.” Krish virou-se de modo a agarrar a borda do precipício, com um pouco de apoio, subiu num instante, olhou uma última vez para baixo, gritei “Corre!”.
A minha curiosidade aumentava, e só havia uma solução agora, descer até á praia, saber mais sobre este exército, e fugir sem ser visto.
Os vigias rondavam o acampamento usando arcos a tiracolo e archotes na mão. Tinha que ponderar cada passo, para não chamar a atenção.
“Serão todos chacinados se Krish não chegar a tempo…”
Perdi-me neste pensamento fatalista, a olhar para o mar na escuridão, com a grande Lua a iluminar os barcos. Ouvi barulhos vindos do acampamento, provavelmente o exercito assassino iria partir, virei a cabeça no exato momento em que uma seta passa a zumbir perto do meu ombro, movi-me depressa, para evitar novo ataque, mas foi depressa demais, fiz o meu pé escorregar numa reentrância da rocha, e antevi o pior.
=== 2nd Chapter – Run away ===

— Lhara —
Estava tudo demasiado silêncioso para meu gosto. Ouvir e calar, não era propriamente o que me tinham ensinado. Levantei-me assim que Sir Frederik pediu para fechar as portas do grande Salão. “Sir…” e muitas caras conhecidas viraram-se para mim, como esperançados que a sua timidez fosse canalizada para a força da dúvida de todos, “… estamos todos assustados. Precisamos de saber o que fazer para manter as nossas famílias seguras!” Olhei em volta, e todos retribuíam com um olhar de sincero agradecimento. Sir Frederik anuiu e fazendo um gesto de calma, tomou a palavra.
“Amigos, estamos juntos á muito tempo e passamos por muita coisa. Após ter sido informado destes últimos acontecimentos por Niifh, pedi a alguns dos guardas para formarem uma equipa de batedores para conseguirmos o máximo de informações, mas até agora nada, temo que possa ter acontecido o pior. Os números destes invasores são grandes e não sabemos o que planeiam nem o que pretendem da nossa casa. Não vos vou pedir para sacrificarem a vossa vida a defender a aldeia, mas também não os obrigarei a fugir. A escolha está com vocês.” Alguns sussurros e choros, interrompidos com a voz serena de Niifh “Mas, Sir Frederick. Se partirmos agora levando o menos possível poderíamos avisar as povoações mais perto, e com certeza que teríamos tempo para chegar a Fort Joriel e protegermo-nos atrás das muralhas.”
Após alguma gritaria e desabafos num imenso caos, o sino tocou. Alguém se aproximava do perímetro da reunião, com a rapida mobilização dos guardas para as portas interiores, todos se aperceberam que era alguem dos nossos. Mas quem faltava aqui? Comecei a olhar as cabeças dos que me rodeavam. Os guardas abriram as portas.
— Krish —
Corri, sem pensar, apenas com o objetivo de alcançar Saiune e conseguir avisar Sir Frederik do que se estava a passar na praia.
Assim que avistei o edificio central, os poucos guardas de Saiune já estavam reunidos e as ruas pareciam-me silenciosas, senti por breves momentos um sentimento de esperança.
Os portões abriram e os guardas fizeram sinal para entrar. Toda a aldeia estava reunida, e esperavam ansiosamente por alguma novidade que pudesse trazer.
Sir Frederik foi o primeiro a falar “Krish… onde estiveste? Tocamos os sinos durante tanto tempo…”. Estava sem folego, e a minha expressão era de extremo cansaço, pedi um minuto, respirei fundo “Runngar… ficou nas rochas junto á praia, não consegue subir… o exercito na praia, vai atacar durante a noite… temos de sair de Saiune… Agora!”
O pai de Runngar avançou para mim, “Obrigado filho, por teres vindo a correr para ajudares o teu amigo! Sir Frederik farei o caminho até à praia para ajudar o meu filho.”
“Eu tambem vou consigo, Fanngar.” Niifh avançou para perto do enorme pai de Runngar. “Eu mostro-vos onde ele está!” disse sem hesitar, colocando-me direito.
Lhara fez um movimento como se quisesse ficar para ajudar, vi a cara dela de preocupação. “Lhara, encontramo-nos no nosso sitio, depois de todos estarem a caminho de um local seguro.”
Sir Frederik puxou da espada que tinha a tiracolo e avançou para Fanngar, “Meu caro, toma podes precisar!”
E o pequeno grupo saiu…
— Sir Frederik —
Estava tudo muito nervoso, a chegada de Krish não ajudou, muito menos o grupo de jovens ter ficado para trás.
“Está na hora de partirmos, não há nada que nos faça ficar, a não ser, oferecer os nossos corpos ao mar. Faremos dois grupos de modo avançarmos mais depressa. Um grupo irá comigo pela estrada do Sal, o outro irá com Sear e passarão pela floresta, fazendo uma paragem no Bosque Escuro, para reunir com o Fanngar e os miúdos. Não esperem muito, estejam atentos, tentem eliminar o maximo de rastos possiveis. Os guardas serão dividos entre os dois grupos, e todos os que souberem usar uma espada ou uma arma passem pelo armeiro e levem o que acharem melhor. Mas tudo tem que ser feito, agora!”
Sear tomou as redeas do seu grupo, começando a juntar as familias, Mestre Flavian e a sua familia estavam no grupo, assim como muitos outros logistas. No meu grupo estavam as familias da periferia de Saiune, os senhores das quintas, dos animais, os produtores da aldeia, fiz sinal aos guardas para abrirem as portas e pedi ao meu grupo para sair e passar no armeiro, teria umas cinco ou seis pessoas com capacidade de usar armas, mais uns cinco guardas, não era muito, não era nada, se tivessemos que nos defender.
Esperei que todos saíssem, para olhar a sala uma última vez, tinha estado aqui diariamente nos últimos dez anos á espera de não ter que voltar a fugir.
— Krish —
Começamos o retorno para a falésia mais rápido do que estava á espera, o que de certo modo era esperançoso caso Runngar ainda estivesse no mesmo sitio. Ou então, demasiado cedo para sermos intercetados por inimigos.
A estrada escura e a ausência de barulho fazia-nos querer avançar ainda mais depressa.
Fanngar e Niifh corriam a meu lado, Niifh trazia o seu comprido arco feito de madeira negra, e Fanngar a espada de Sir Frederik, tinha deixado a minha vara em casa, e estava desarmado, não seria de grande ajuda, caso uma luta surgisse.
Esta situação parecia um sonho, alias, um pesadelo. Ter que deixar Saiune e tudo o que nos pertence parar trás, não parecia certo, queria ficar e lutar. Mas as forças que estavam na praia era muito superiores em número que o qualquer exército de Fort Joriel.

Fort Joriel era uma cidade fortificada, a mais perto de Saiune, mas os seus muros não estavam preparados para serem parte de uma defesa, tinham sido considerados arte, pela beleza que davam á cidade, mas eram muros baixos e frágeis, serviam mais de passagem entre zonas da cidade do que propriamente para defesa. O formato da cidade era em estrela numa perfeita união entre a as estrelas e o Deus da Ciência.

A meu ver a esperança seria conseguir atrasar este ataque com a ida para Fort Joriel, esperando que o massivo exercito da Rainha pudesse vir a considerar esta ameaça como algo potencialmente nocivo para o Reino.

No entanto, acreditava que o numero de barcos que chegaram á costa, é algo de nunca visto na historia do Reino.
— Runngar —
“AHHHHHHH…” esbracejei tentando alcançar uma corda invisível. Os movimentos involuntários de luta contra o vazio fizeram-me virar de lado, atingindo a areia com a força de um rochedo gigante. Senti o vácuo do meu estomago encolher e transformar-se numa má disposição vertiginosa, demonstrada num vómito misturado com tosse e falta de ar…
Mantive-me uns segundos quieto, até que a lembrança de setas se tornou uma memória viva. Levantei-me e tentei caminhar, cambaleei doía-me as costas, os joelhos e o braço, olhei para cima. Apesar de tudo, a queda não tinha sido muito aparatosa… podia ter sido muito pior.
Olhei o acampamento, não vi movimento na minha direção, no entanto, poderiam estar escondidos entre as rochas. Caminhei nas rochas baixas, tentando não deixar marcas na areia, mas acima de tudo sem deixar mais marcas no meu corpo. Sentia-me dormente, ficaria feliz se conseguisse sair daqui sem ser apanhado. A baia fazia uma barriga de areia junto ao mar, como que fechando a praia e começando outra, saltei por entre as pedras até ao areal, e sem olhar para trás comecei a correr em direção á escarpa de acesso á praia assim estaria mais perto de Saiune.
— Niifh —
Correr parecia-me devagar, deviamos estar a voar. Não podia deixar Runngar sozinho nas rochas, era demasiado perigoso até mesmo para um rapaz robusto e lutador como ele. Levava o grupo para o promontório onde eu e Runngar tinhamos descido para ver o grupo de perto.

Corriamos no lado interior do trilho que acompanhava a falésia de modo a não sermos avistados por batedores.
Fiz sinal para abrandarmos, estavamos muito perto, o trilho seguia, mas umas rochas tapavam o caminho para o promontório, várias delas estavam gravadas com promessas de boa viagem para os navios.

Trepei as primeiras pedras e saltei para o trilho do promontório, aguardei por Krish e por Fanngar, fiz sinal para uma zona mais ampla nas rochas uns bons metros abaixo.
Escondidos, conseguiamos ver a extensão de todo o acampamento, os invasores, quem quer que fossem, não pareciam ter pressa.
Por momentos passei os meus olhos pelas rochas que rodeavam a baia, procurei por guardas que estivessem colocados em pontos chave. Apontei para o guarda mais perto, estaria a uns trinta metros, estava de costas para nós, num patamar mais baixo, os restantes estavam espaçados entre eles, o que me fez acreditar que teriamos um guarda uns metros abaixo. Sinalizei os restantes ao grupo, e fiz sinal para baixo indicando a possivel existencia de mais um.

Só havia duas possibilidades ou Runngar tinha sido preso, ou pior morto, ou então tinha conseguido fugir antes de terem colocado os guardas. Levantei-me cauteloso, subi as rochas e voltei para o caminho. Krish veio ter comigo. “Temos que assumir que Runngar conseguiu fugir…” Parei para pensar, as opções que tinhamos “Vamos separar-nos, alguem tem que ficar aqui para o caso de ele voltar, Krish faz o caminho até ao Bosque Escuro, seria o local para onde fugiria, Fanngar podias fazer o percurso até Saiune? Podes passar pela quinta e apanhar um dos cavalos que ficou para trás, e vem ter connosco até ao Bosque Escuro” Fanngar cuspiu no chão, como que enojado “Sim. Eu faço o caminho de volta pela falésia, poderei ver os recantos nas rochas, não vá Runngar ter-se escondido até isto acalmar. Encontramo-nos em no Bosque Escuro ao nascer do sol, se houver um ataque encontrem o vosso caminho para Fort Joriel, o mais rapido que conseguirem.”

Cada um seguiu o seu caminho, mantive-me escondido, com vista para o caminho e para o promontório. Tudo me passava pela cabeça, quem eram estes invasores, o que seria da nossa aldeia, quem conseguirá fugir, chegariamos a Fort Joriel?

Eram muitos pensamentos confusos, havia muita coisa para se perder em tão pouco tempo, tirei umas quantas setas e perdi uns segundos a olhar as pontas e as penas, estava perdido em pensamentos futeis, puz uma seta no arco e guardei as restantes. Uma sombra passou entre pensamentos, sem pensar larguei a seta, cravei-a no tronco da arvore á altura de uma cabeça. Fixei o caminho, com uma mão puxei o outra seta… Vi uma mão a segurar um machado grande e a sair da vegetação, baixei o arco, e saltei para o chão. Corri para abraçar Runngar.
— Lhara —
Assim que saimos da reunião Sir Frederik fez-nos passar no armeiro, trouxemos algumas espadas, facas e pequenos machados, mas a maioria decidiu pegar nas suas ferramentas agricolas. Em passo acelerado percorremos as ruas de Saiune até á estrada que nos levaria Fort Joriel. Pelo que tinha ouvido dizer no grupo era uma caminhada de pelo menos três dias, no entanto, nunca saberiamos o que viria atras de nós. Seriam pelo menos duas noites de paragem para descansar os mais velhos e os mais novos. A nossa logistica era parca tinhamos dez cavalos e quatro carroças para pouco mais de quarenta pessoas, entre crianças, bebés e alguns habitantes mais velhos que já se notava a dificuldade a fazer um percurso deste tamanho. Muitos deles queriam ficar em casa, ajudar a defender a aldeia, a vida neles já foi mais viva, ninguem concordou, com os grupos a moverem-se para Fort Joriel, não havia nada para defender “Corpos por pedra, nunca valerá a pena” disse Mestre Flavian.

Pensava em Runngar, Krish e Niifh e se os conseguiria encontrar em Fort Joriel outra vez, ou se eles conseguiriam chegar até nós quando alcançassemos o Bosque Escuro. Desde sempre que fomos muito proximos e as parvoices da juventude fez-nos crescer como uma familia. Cada um de nós completava o outro, e ninguem se metia em sarilhos sozinho… Sorri.

Mas foi um sorriso triste, porque é que isto está a acontecer agora? De quem eram aqueles barcos? Imaginei a possivel batalha, seria doloroso morrer? Ou seria mais penoso ver quem amamos partir?

Estava perdida em pensamentos, quando Mestre Flavian vem ter comigo pedindo para ajudar com Aine, ela estava a sentir algumas dores. Pior sorte seria o bebé de Aine querer sair durante a viagem, visto que sairia um mês mais cedo. Arrumei uma das carroças e fiz entrar Aine, ajudei-a a ficar confortavel trouxe-lhe agua e um pouco de pão.

Ia ser uma viagem trabalhosa e eu estava sozinha, sozinha sem os do costume.
— Gaine —
Estava espantado como toda a minha se mudou em apenas 2 dias. Tudo me parecia diferente, tudo era novo, e inexplorado e perdia muito tempo a tentar compreender, e a fazer muito sentido.

Apercebi-me que tinha deixado de falar como falava, agora não tinha tempo para partilhar algo que não compreendia. Precisava de entender, antes de poder explicar.

Olhei a minha familia antes de subir para a carroça, todos eles tinham linhas a sairem do peito, que se interligavam umas com as outras, não eram iguais, eram até bem diferentes mas que no entanto entendia-as como sendo laços fortes de união incondicional, de amor.

Desde manhã que tinha notado que estas linhas entre nós não eram unicas, mas sim aquelas que mais sobressaiam num emarenhoado novelo de linhas que estavam escondidas.

Todas as cores agora eram obsoletas, tudo tinha uma perspectiva diferente, porque de manha todas as cores eram diferentes do que tinham sido no dia anterior durante a noite… era fantastica a metamorfose que o mundo levava todos os dias.

Subi para a carroça, sem me aperceber como o meu corpo já não conseguia reagir á velocidade a que pensava, tropecei e batic om as canelas no degrau da carroça, senti a dor a subir, e vi ao vivo algo extraordinario, a linha que me unia a minha irmã
Lhara mudou ligeiramente a sua cor, como se ela tivesse sentido a dor, ou algo se tivesse modificado apenas por ter tropeçado.

Recostei-me na carroça, para sentir os solavancos, era um caminho acidentado a estrada que acompanhava a falésia até Sainue.

Os sinos continuavam a tocar, ouvia-os ao longe e á medida que nos fomos aproximando da praça central, tudo se tornou um completo mundo novo, todas as pessoas tinham estas linhas a saírem delas e a conectarem-se umas com as outras, linhas de todas as cores e feitos, grossas, finas, detalhes imensos.

Não me apercebi que tinha a boca aberta a uns bons 5 minutos, estava com baba a sair-me da boca, e a minha camisa já estava manchada, a cara de Lhara a olhar para mim, fez-me voltar, ela sentia pena de mim.
– O que foi mana? Estava apenas pasmado com a bonita luz da lua e como os reflexos da luz deixam o teu cabelo brilhante, pareces uma princesa. – Estas palavras saíram naturalmente, mas forcei-me a dizê-las, porque senti-las era fácil.

Entramos na reunião, e percebi que todos tinham curiosidade, todos incluindo eu, queríamos saber o que se passava de novo em Sainue que fosse tão importante para os sinos serem tocados.

Quando a historia foi contada, o burburinho começou e a medida que este aumentava mais aumentava as ligaçoes que as pessoas tinham entre si. Realmente foi fácil de ver, a medida que o tempo passava as linhas das pessoas que partilhavam as mesmas ideias acabaram por se unir com outras pessoas do mesmo grupo, a forma, a cor a intensidade de cada linha dependia directamente de como a pessoas se relacionava em relação a outra.

De certo modo, agora acreditava que todos estamos unidos a alguém, embora nem sempre estejamos ligados a todas as pessoas ao mesmo tempo, as linhas de vida (apelidei-as assim) criavam-se e desapareciam da mesma forma que o sopro de vida das pessoas desaparecia, de um momento para o outro.

— Fanngar —
O dia estava a findar fazia todo o sentido um ataque durante a noite, o que dava algumas horas de avanço ao grupo de Saiune. Os vigias continuavam no mesmo sitio, parados atentos, mas apenas á parte interior da praia. Parecia que não lhes interessava se algo os atacasse pelas costas, soava a confiança a mais.
Durante os momentos que parei na Fonte Riscada onde pude observar com mais detalhe o acampamento, nenhum guarda olhou no sentido contrario ao mar, nem vi qualquer sinal do Runngar. Começava a ficar um pouco preocupado, Runngar podia estar preso numa daquelas tendas e eu nunca saberia, podia até já estar enterrado na areia ou a boiar no mar, morto. Mas, Sentia que a vida dele ainda não podia ter terminado, algo me dizia que Runngar estava vivo, e a salvo. Runngar sabia que para fugir a opção mais logica seria ir para Fort Joriel através do Bosque Escuro era um caminho pouco conhecido e muito mais direto do que a estrada.
Molhei os labios e aprontei-me para seguir o caminho para Saiune, passaria pela Quinta das Aboboras para apanhar um dos cavalos de Krish. Olhei a espada de Sir Frederik e no seu reflexo vi uma figura negra a aproximar-se, um dos guardas.
Voltei-me para o combater, não iria embora sem verter sangue.

Quando me voltei estavam sete figuras negras, as suas caras estavam tatuadas com circulos negros, uns com mais que outros, nenhum deles tinha uma arma, brandi a minha para que se afastassem.
Ninguem se mexeu, dei um passo para trás, e um dos encapapuçados tirou o capuz revelando a sua careca tatuada, avançou para mim dizendo “Este plebeu sofrerá a pior morte, a morte de não ter vivido, de não ter pertencido… será a minha primeira experiencia!”
Levantei a espada e corri para cima dele, pelo menos foi isso que quiz fazer. Num momento para o outro todos os meus musculos estavam rijos, pareciam pedra, não respondiam ao que queria fazer.
O encapuçado acenou para outro que estava com as mãos no ar, quando as baixou, eu cai no chão… com gestos subtis o encapuçado aproximou-se, debruçou-se sobre mim, com os dedos foi passando pelos meus cabelos, cara, olhos, e aos poucos fui esquecendo, memória a memória foi arrancada de mim, pessoas esquecidas, momentos perdidos, agarrei-me á lembrança mais forte a lembrança do meu filho Runngar.
Aguentei-a até ao fim, até não saber o que era o sol, nem a água, nem o meu nome, nem o que era, nem onde estava, e por fim esqueci-me porque é que aguentava aquela lembrança, o que era aquele nome que ecoava na cabeça Runngar, Runngar, Runngar… deixei-o ir tambem… e parti para a luz que me queimava os olhos…
=== 3rd Chapter – The rescue ===

— Runngar —
Tinha tido alguma sorte em encontrar Niifh, após ter conseguido dar a volta ao pontão subi o carreiro das cabras como lhe chamávamos, era ingreme e perigoso, mas era tambem o unico que não tinha vista privilegiada para os guardas e para todo o acampamento. Mantive-me perto do caminho e o meu passo era lento, coxiava ligeiramente e tinha a cara com sangue, provavelmente iria ficar com umas boas cicatrizes.
Niifh explicou-me que tinha vindo com Krish e por momentos pareceu-me que ia dizer mais qualquer coisa mas a sua expressão desvaneceu-se tão rapido como se nunca tivesse acontecido.
Seguiríamos o caminho até á Fonte Riscada e apanhariamos um dos cavalos da Quinta das Aboboras para chegarmos mais rapidamente até ao Bosque Escuro.
Demos uma ultima olhadela ao acampamento, e notamos que os guardas eram menos agora, provavelmente iriam mudar de posição, ou então encontraram intrusos. Apressamos o passo, alcançando a Fonte riscada em menos de dez minutos, passamos por um corpo caido, quando o olhei tive um momento de duvida, mas não o reconheci deitado no chão, não aparentava ter qualquer ferimento, mas não tinha vid, aprovavelmente seria um dos invasores. Era estranho. Apanhei a espada e dei-a a Niifh, parecia-me ser muito identica á de Sir Frederik, com a marca da Rainha. Este estranho podia ser um representante da Rainha, mas como? Ou então poderia já ser tarde demais para toda a aldeia?
Deixamos o corpo para tras, corremos até ao portão da quinta, Niifh entrou a correr em direção ao pequeno estábulo, trouxe dois cavalos selados e o que pareciam ser dois cobertores enrolados no seu dorso.
Montei o cavalo e coloquei o machado preso nos alforges. Niifh fez o mesmo, colocando aquela espada um pouco grande demais para ele, e iniciamos a viagem a galope pela estrada, teriamos que apanhar o grupo que já partira á cerca de duas horas.
Pensei nos guardas que tinham desaparecido, será que tudo já teria começado?

— Sear —
O grupo caminhava a cerca de duas horas, estavam assustados mas ainda não havia sinal de perigo nas nossas costas. Os guardas que batiam o território tinham informado de não haver ninguém a redor. No entanto, o dia estava a ficar comprido após um dia de trabalho, e muita emoção havia já muitos que se arrastavam e que faziam o grupo mover-se cada vez mais lentamente. Era demasiado perto de Saiune para podermos parar, mandei os mais velhos montarem os cavalos e tentarem descansar enquanto os mais novos aceleravam passo.
Ninhamos que chegar o mais depressa possível a Bosque Escuro, era o local mais seguro entre Fort Joriel e Saiune.
O Bosque Escuro era uma área de floresta com um pequeno monte no centro, era uma zona conhecida por caçadores por ser um abrigo contra os animais da floresta.
Previa que fossem mais umas duas horas a andar a este ritmo.
Para trás deixávamos uma vida de calma, perto do mar, do sol, fora do alcance das rígidas leis da Rainha. Mas, se ficássemos arriscávamos a não voltar a ter essa sensação de calma.

Um dos batedores cavalgou até á frente do grupo, parou e desmontou, fiquei para trás para falar com ele, tudo o que fossem noticias más tinham que ser doseadas.
“Alcancei o monte do Bosque Escuro, está tudo tranquilo por aqueles lados. Mas… no entanto, já avistei fogo na zona de Saiune.” Baixou os olhos. “Não temos muito tempo…”

Pensei em Lhara, se o exercito avançar pela estrada, o grupo de Sir Frederik teria que se apressar para chegar sem incidentes. Por outro lado, se chegarmos a Bosque Escuro será mais facil manter uma posição defensiva, ou conseguir esconder o maximo de pessoas na floresta. Os cavalos poderiam ser soltos e mais tarde serem apanhados novamente. “Edmond, pega num dos cavalos e faz o caminho até á estrada do Sal, avisa Sir Frederik do que se está a passar… Diz a Lhara que a amo.”

As duas horas seguintes foram penosas, os pensamentos que me assolaram a cabeça eram dolorosos. A aproximação do local tornou-nos mais silenciosos, os batedores partiram a nossa frente, e voltaram sem perigo nenhum. Paramos os cavalos no sopé do monte e começamos com os preparativos. “Amigos, Saiune foi atacada, o exercito deve estar no encalço de um dos grupos ou dos dois, não sabemos. Aqui estaremos no local mais seguro para descansarmos até ao amanhecer, terão apenas quatro horas. Escolham um local escondido, entre as rochas ou façam pequenos abrigos. Os guardas não são suficientes para proteger toda a gente, por isso prestem atenção e não corram riscos desnecessários. Se alguma coisa acontecer, só existe um objetivo, sobreviver e alcançar Fort Joriel.”
O burburinho gerou-se, houve choros, e olhares de medo, mas era a realidade, e não podia mentir a minha familia, logo não o faria a ninguem.
Alcancei Taila e Gaine, e comecei a subir o monte, Lhara tinha-me falado neste local, havia uma pequena gruta que daria alguma proteção.
Sorri quando vi a gruta, só a Lhara é que podia chamar gruta a um buraco daqueles. Gaine trepou pelo buraco e ajudou Taila a descer, pelo que percebi a gruta era baixa, o suficiente para andar de cocoras, caberiam umas cinco pessoas pequenas. Passei um cobertor e o saco dos mantimentos – “Fiquem aqui, vou subir até o cume para ver o que nos rodeia.”

Desci a colina rapidamente, vi mais uma das familias que viajava connosco tinham três crianças pequenas entre os seis e os doze anos, falei com o pai, um dos mercadores, falei-lhe no buraco , ele acenou com a cabeça e fez subir as crianças.

Beijei Taila. Vi lagrimas.
– Eu fico e protejo-os nem que seja com o ultimo sangue do meu corpo. Amo-te!

Ajudei-as a entrar e subi até ao cume.
Havia varias colinas de fumo na zona de Saiune, o que queria dizer que o exercito tinha chegado e incendiado tudo.
Alguns gritos vindo da base da colina fez-me despertar. Corri colina abaixo brandindo a espada. “Lhaaaaaaaaaaaraaaaaaaaaaaaaa!”

— Krish —
Iniciamos a busca, o grupo reunia sempre no mesmo local, mas apos rever as pistas nas redondezas tudo indicava que algo tinha acontecido. As plantas partidas e as pegadas esborratadas faziam crer que tinham sido propositadas. Agora, tudo dependeria de quem as tinha feito, poderíamos estar a caminhar para uma armadilha, ou a seguir o caminho dos restantes fugitivos.
Coloquei uma seta no arco, e fiz sinal a Runngar para fazer silêncio e seguir-me. Praticamente não tinha que me esforçar em interpretar as pegadas, eram demasiado óbvias, até Runngar seria capaz de as seguir. As pistas levavam-nos na direção do monte, um pequeno promontório no meio da floresta. a nosso redor tudo parecia calmo, a parte do inconstante chilrear não havia sinais de outras pessoas nas redondezas. Mas nunca se sabe, as melhores armadilhas são aplicadas nas situações mais óbvias. Runngar apareceu a meu lado com o seu machado duplo na mão, as cicatrizes recentes na sua cara davam-lhe um ar feroz, a queda nas rochas da praia tinha sido aparatosa, era inacreditável conseguir brandir o machado gigante de duas mãos numa só, mas por outro lado, era Runngar.
Ao aproximar da área coloquei de parte a hipótese de uma armadilha, havia pequenas fogueiras por apagar, já a fumegar indicando pressa na hora de partir, mas isso nem era estranho em tempo de guerra, no entanto toda a zona estava avermelhada, sangue, braços, pernas, corpos, tripas, cavalos cortados ao meio, tudo o que poderia ter corrido mal, parecia que tinha acontecido. Corri, sem pensar, Runngar seguiu o mesmo instinto, percorremos os corpos um a um procurando pelos nossos amigos. Cada corpo virado era um salto no coração, mas felizmente não encontramos ninguém, arrumamos os corpos numa zona mais limpa, ainda não tínhamos tomado qualquer providência quanto a possíveis inimigos que tivessem ficado para trás, mas com esta matança e com estas almas perdidas era um detalhe que nos poderia ser caro.
Fiz sinal a Runngar e Niifh para dar uma vista de olhos nas redondezas, juntei todo o material que podia carregar e que podia ser útil. Enquanto procurava por pistas de fuga, Runngar voltou, pegou numa das mochilas e fez sinal indicando que não havia perigo iminente. Peguei na outra mochila, parti um pau de fogo e atirei-o para a pilha de corpos, tínhamos pouco mais de cinco minutos de avanço do que quer que fosse ver o fumo que se iria criar.
Por um momento o silencio, foi inundado pelo crepitar da madeira e pelo cheiro de carne carbonizada, mas em pano fundo ouvi um choro, uma criança, algures. Runngar tambem parou.
Os sons pareciam vir da colina, e quanto mais me aproximava mais os sons pareciam abafados, quase como que alguem tentava abafar um choro. Só podiam ser sobreviventes deste massacre, alguem teria sido inteligente a ponto de ter escondido os filhos.
A entrada da gruta estava bem camuflada entre as rochas, aproximei-me o suficiente para ser ouvido, “Está ai alguem? Sou o Krish… podem sair, sem medo!” .
— Gaine —
Alguém chamava por nós, fora da gruta, ou buraco como lhe quiserem chamar. Mas, já tínhamos ouvido muita coisa hoje, gritos… de dor… de medo… de morte… mas nenhum como este que nos chamava docemente.

O meu coração batia muito depressa, lembrei-me da dor de a quatro dias atras, não podia estar a acontecer agora.

Eu tinha tentando avisar o meu pai que algo estava mal, que tinha medo que fossemos emboscados nos nossos proprios bosques, o meu pai por orgulho ou não, não quiz saber.

E o inevitável aconteceu, a emboscada deu-se no sopé das rochas, o meu pai tinha-nos levado para aqui, e corru para a batalha como se soubesse, ou pelo menos estivesse preparado para abraçar a sua morte. Mas eu… estava aqui… não queria que ele morresse apenas porque sim.

A medida que a batalha decoreu, senti que a intensidade de algumas das linhas de vida tinham diminuindo, entre tamanho e cor. Presumi o pior, mas no fim de conta até foi melhor do que esperava, todos por igual tinham ficado sem um parente…

Mas mesmo assim, fiz sinal para todos se calarem, ou pelo menos tentarem… era o que dava estar metido num buraco cheio de crianças de todas as idades.
Mas a seu tempo foram acalmando os nervos. Reconheci a voz de Krish… Sorri. A voz veio a confirmar algo que ja sentia a algum tempo, um aliado aproximava-se.
Esforcei-me por sair do buraco, era apertado o suficiente para me espremer dali para fora.
Assim que consegui por a cabeça de fora, vi Krish a olhar para mim, acenou e trepou o que restava das rochas para me ajudar, teria sido bem mais dificil se não tivesse ajuda.
Todos sairam, eram doze crianças dentro de um buraco que daria para tres homens, mas todos estavam a salvo.

Começamos a descer a colina, o fumo era muito intenso, o cheiro era indescritivel… era a morte a dizer que tinha levado os nossos pais… e…pela expressão das crianças dei graças ao Criador por Krish e Runngar terem queimado os corpos, e estes estarem totalmente irreconheciveis.
Tinhamos um longo caminho até Fort Joriel, e o meu coração chorava… e não queria ser o fraco… Eu sabia que não era o fraco….

— Sir Frederik —
O grupo avançava lentamente, com alguns choros e medos. Estava uma noite escura e as lanternas que seguravamos acrescentavam algo de sombrio ao nosso caminho. A divisao do grupo tinha sido feita com base no antecedente militar, ou na capacidade de manusear uma arma para se defender, mas apesar de ter tido essa consciencia, nao podia deixar de me sentir culpado, caso algo acontecesse ao outro grupo.
A velocidade que ia-mos previa avistar as torres de Fort Joriel em 2 dias, dps seriam umas boas 3 horas pa alcancar os portoes.
Nem conseguia ter a noçao de como iriamos ser recebidos, face a gravidade das noticias que traziamos, no entanto um dos batedores ja devera ter chegado nessa altura e entregara a carta que explica em poucas palavras o perigo que se avizinhava.
Tenho estado a tentar nao ser dramatico nem pessimista, porque foi assim que me ensinaram, enquanto acompanhei a guarda real … mas sabia que um dos grupos teria grandes possibilidades de ter problemas caso a investida dos invasores fosse rapida e eficaz tal como um ataque planeado contra um alvo mais fraco. Rezei brevemente para que o sol nascesse igual ao dia de ontem, e que nao houvessse derrame de sangue.

— Runngar —
Apressei as crianças para seguirem Niifh, mas não antes de estabelecer as regras, o silencio era muito importante assim como o parar e esconder ao sinal de perigo. Muitas destas crianças não tinha noção do que tinha acabado de acontecer, e como este período seria devastador quando a realidade lhes abrisse os olhos. Mas isso, não podia ser a caminho, teria ser em porto seguro, teríamos de alcançar Fort joriel nos próximos dias sem mais fatalidades. Olhei Krish, que tinha Lynn ao colo, um bebe de apenas 18 meses, que tinha acabado de perder os pais… quem tomaria conta desta criança? O caminho ate ao nosso destino era simples se todos se ajudassem e nao houvesse paragens com grandes demoras, tinhamos a pequena vantagem de ir apos o que fosse que apanhou o grupo de Sear, os sinais indicavam que o que restava do grupo dirigia-se na direção da estrada.
foi partindo deste pressuposto que indiquei a Krish que o melhor caminho seria através do Bosque Escuro, seria mais difícil com todas as crianças mas pelo menos seria mais seguro.

Sentei-me junto a um monte de mantimentos e material, Niifh dividiu em dois montes um para cada um e comecei a rever a quantidade de mantimentos e de material que tínhamos, os miúdos tinham algumas provisões, que por sua vez, alguém muito inteligente e sábio deixou para trás.
Após a contarmos todo o material, tínhamos comida para três dias e água para dois, descartei todo o material que só pesava, libertando assim as crianças mais velhas para ajudarem as mais novas. Apesar de ter encontrado três cavalos eles pouco ou nada nos serviriam no meio da floresta, mantive apenas o mais pequeno e tirei-lhe os arreios dos restantes e deixei-os ir, talvez tivessem mais sorte sozinhos.
Antes de partir reuni todos os miúdos, Krish e Niifh e eu via na cara destes miúdos a desgraça, a tristeza, a falta de esperança éramos dez com duas crianças que não andavam.

Dei uma ultima olhada a pilha de cinzas, dos corpos queimados de familiares… eram pais, mães, filhos, avós, irmãos e tudo mais, mas acima de tudo era Sear, e Thaila pais de Lhara, e Rikser e Marha pais de Niifh.

Niifh era filho único, e acabara de perder a única família que lhe restava, não esperava que estivesse tão calmo, que não vertesse lágrimas, que queimasse os corpos dos seus pais e não esboçasse qualquer sentimento.

Ao menos, Lhara tinha Gaine e Lynn, agora a seu encargo, seria uma responsabilidade para quem ainda nem sequer tinha a vida feita, mas não estaria sozinha.

Niifh por seu lado tinha-nos a nós apenas, e apesar de não expressar nada agora de certeza que de algum modo este acontecimento ia mudar a vida dele. Tinha que estar pronto para o que Niifh precisasse, pelo menos gostava que estivessem disponíveis para mim caso algo semelhante acontecesse.

infelizmente minha mae morreu no meu nascimento, não conseguiu sobreviver aos ferimentos que eu lhe causei. Algo que lamentarei ate ao fim da minha vida.
não tenho qualquer memória de meu pai. Nem cm ele era nem que papel teve na minha vida era uma ausência de palavras quando tentava comparar a ideia de Sear com alguém com esse papel na minha vida. por isso não podia comparar a minha dor com qualquer um deles…

Esqueci os pensamentos dolorosos das familias mortas e concentrei-me na missão de chegar a Fort Joriel com uma cambada de miudos.

Demoraríamos uns 4 ou 5 dias a andar por vegetação diversa e desconhecida, com sorte evitaríamos o perigo. Mas o próprio bosque tem o seu perigo… e esse não podíamos evitar.

— Sir Frederik —
O acampamento encontrava-se a pouco mais de quatro horas de distância de Fort Joriel, estávamos no limite da orla da floresta e a partir deste ponto, para a frente, toda a protecção que tínhamos deixaria de existir. Apesar do avanço ter sido notório nos últimos dias face ao que estava a espera, as noites foram caóticas e desesperantes, tornando claro que teríamos que dormir pouco.
Na primeira noite, apesar de haver vigias a volta do acampamento, foram dadas varias vezes o sinal de perigo, o medo e a inexperiência dos vigias obrigou a que os mais experientes não pudessem descansar sem ser com os olhos abertos, e claro, com a barulheira quase toda a gente acabou por dormir pouco.
Mesmo assim não foi suficiente para que o desespero aumentasse ainda mais quando no raiar da manhã o grupo se aperceber que faltavam duas mulheres. A gritaria era imensa, os batedores procuravam pistas nas redondezas, mas era dificil devido á quantidade de pisoteio que tinha sido feito durante a noite atribulada, mesmo que deixassem provas deliberadamente iria ser dificil descortina-las. Após um grande esforço a tentar acalmar e convencer toda a gente a arrumar os seus pertences pusemo-nos a caminho.
O tempo perdido nas buscas não o iriamos recuperar, tinha a sensação que estavamos a ser seguidos e que independentemente das nossas escolhas o destino que teriamos era o que eles escolhessem. Mantive o meu negativismo bem escondido, não iria criar o panico nem tentar fazer algo que pudesse vir a por toda a gente em perigo, ia estar atento.

Durante a tarde, as pistas que nos faltaram durante a manhã apareceram. Os corpos das mulheres estavam esquartejados e amontoados junto a uma arvore, parecia um aviso. A minha primeira intenção foi avançarmos e acelerar o ritmo, para conseguirmos escapar, mas era de todo impossivel pensar em deixar estas duas jovens ali, desprovidas de tudo. Escavamos duas pequenas campas e enterramos os corpos. O silencio instalou-se, “mantenham os olhos abertos!” gritei antes de partirmos a vigilância era a palavra de ordem.

Os batedores deram ordem para avançarmos para a pradaria, não havia vestígios de outras pessoas nas redondezas. Parecia que o que esperava poderia não vir a cumprir-se para nosso bem. Avançamos com um folego renovado pela pradaria, alcançaríamos os muros da cidade em menos de uma hora.

Após tanta coisa que nos aconteceu no caminho so me apetecia sentar, descansar e beber uma cerveja bem fresca. Mas um grito vindo de trás fez-me desvanecer a imagem saborosa.
Um grupo de cavaleiros todos trajados de preto com capuzes corria na direção do nosso grupo, gritei “Protejam-se, corram, depressa! Apanhem as armas!!!!” Enquanto uns corriam para os portões o mais depressa possivel, outros fugiram pela vegetação baixa.

Vi pessoas a cair, a tropeçarem uns nos outros, no fim de contas, ninguém sequer se deu ao trabalho de olhar para quem os perseguia. Os portões abriram-se e um os cruzados a cavalo sairam para nos auxiliar, os atacantes pararam a pouco mais de 100m dos muros, olhando para os que se salvaram.

O ambiente era pesado, eles não pareciam normais…

— Krish —
Com a escolha de nos afastarmos da estrada, estaríamos também a fugir ao que pudesse ainda ter ficado após o massacre. Ao penetrarmos pelo Bosque Escuro teríamos animais selvagens, zonas densas de silvado, ou até mesmo heras venenosas, tudo poderia ser fatal para metro e meio de vida.

Os dois primeiros dias passaram rapido, os miudos cansavam-se mas não refilavam, paravamos algumas vezes por causa dos bebés, mas até estes demonstravam estar num estado diferente, adormecidos da realidade.
Lembrei-me de Lhara, olhei para Gaine o seu irmão, estava crescido tinha quinze anos, e desde sempre que dizia que Gaine fugia um pouco ao que os rapazes da idade dele gostavam de fazer, mas Lhara, sempre o protegeu, o irmão era tudo. Sabia que tinha a minha frente um tesouro, o tesouro dela e faria tudo para que nada lhe acontecesse.
Mas hoje, era diferente, estava a olhar para Gaine e a sentir o quão crescido ele estava, as ações dele era pensadas como se de um adulto se tratasse, e os mais pequenos seguiam-no.

Abanei a cabeça como se precisasse de algo que me ligasse a realidade. Lhara estava bem e em breve Gaine estaria com ela, era isso que tinha de acreditar.

Entreguei Lynn a uma das miúdas e fiz sinal para parar. Um amontoado de rochas a nossa frente seria o ponto ideal para subir e ver o que nos rodeava, e sentir que não estávamos a andar em círculos.
Escalei até ao topo, a rocha maior saia ainda uns bons cinco metros de altura das árvores, icei-me e consegui perfeitamente ver as torres de Fort Joriel, calculei que seriam dois dias de caminho se nada nos atrasasse.

Voltei para o grupo a pensar que estava cansado, mas que faltavam apenas dois dias para sentir o prazer de um colchão e de um estufado bem quente e picante.

Andei sem pensar, como um sonâmbulo, com sorte a realidade só chegaria quando chegássemos a Fort Joriel.
— Lhara —
Depois de enterrar dois corpos, engolia em seco e já não tinha lágrimas para verter. Sentia algo esquisito no meu estômago, parecia que tinha perdido algo, mas era normal, duas amigas tinham sido assassinadas, podia ter sido eu.

Esta situação parecia-me estranha, os barcos tinham chegado á nossa praia á pouco mais de cinco dias, tinham tido tempo para planear um ataque sem sequer conhecerem a força da povoação, tinham ignorado os espólios da aldeia para uma perseguição. Parecia que eles tinham toda a informação que precisavam antes sequer de chegarem até nós. E se não querem nada da aldeia, porque virem atrás de nós, porque se darem ao trabalho de matar duas jovens e não todos nós de uma vez por todas! Afinal ainda tinha lágrimas.

Estávamos a um bom passo mas a cara das pessoas era de uma tamanha tristeza, abandonar as casas, as famílias, a sua vida, para a incerteza, a incerteza de chegar vivo, do que havia para vir, da dor que sentiriam quando souberem que chegou a sua hora.

…Mas, eles estariam à procura de algo ou alguém, poderia haver um chibo entre nós?
Durante o resto do caminho até aos portões não parei de pensar noutra coisa, havia muitas perguntas que ninguém aqui me poderia responder, alias sentia que era a única que me revoltava com o que se passava, e que queria saber o porquê.

Levantei os olhos do chão, não sabia á quanto tempo olhava os meus pés sujos, sobressaltada deixei que os sons de civilização se embrenhassem em mim, era tudo o que eu mais desejava. O grupo estava já a entrar nos portões, mas eu não me lembrava o que tinha acontecido na ultima hora. Parei mesmo no fim da fila, antes de dar os últimos passos para a segurança dos muros de pedra, sentia que algo me impelia a olhar para trás… contei, …3,6,10,15,19…20! Vinte homens vestidos de negro, com capuz, alguns a cavalo estavam parados a olhar para a cidade, sem avançar, imóveis como estátuas.
Entrei na cidade, mas não me sentia nada segura…

=== 4th Chapter – Fort Joriel ===

— Sir Frederik —
– O meu nome é Sir Frederik, da Guarda da Rainha, sou o regente de Saiune, vimos pedir guarida! – Gritei para o Sr. Comandante que observava a chegada do grupo. Sabia que tinha que ser sabio nas palavras que escolhia, não podia alarmar a cidade sem pelo menos falar com o Governador.

– Sir Harold, Comandante da Guarda, muito gosto em ve-lo Sir Frederik, já não nos encontrávamos á algum tempo. Venham, o Governador está a vossa espera, o vosso batedor chegou ontem de manhã, quase que poderia dizer que quem chegou foi o cavalo, porque o homem vinha bastante ferido. – o homem era corpulento até mesmo nas piadas que dizia.

Fomos levados para um pequeno forte central, os muros da cidade, cruzavam o muro do forte, estes serviam tambem de passagem aerea dos soldados, possibilitando uma rapida atuação dos mesmos. Nenhuma pessoa poderia andar nos muros, apenas a guarda, era considerado Traição, uma lei punida com morte por enforcamento.

A nossa espera uma comitiva de boas vindas, Lhara chegou-se perto de mim.
– Sir, acha que o poderia acompanhar? – sempre soube da fatal curiosidade de Lhara, sempre foi muito expedita e interessada.
– Lhara… sei que tens muitas questões e é difícil de perceber tudo o que se passa, mas não podes questionar o Governador como se ele se tratasse do teu irmão. – ela olhou-me muito séria, introspectiva.
– Sim, Sir Frederik, prometo que o acompanho e falo apenas quando me pedirem. – a cara dela dizia uma coisa, mas eu conhecia-a tão bem.
– Sim, Lhara… Sim… Podes acompanhar-me. Por favor, cuidado com o que dizes, eu quero dormir numa cama hoje a noite, ok? esse é o limite! – e sorri…

Ela bateu palmas e sorriu apenas para ela, quase aos saltinhos de contentamento. Desde cedo que Lhara me tinha demonstrado a sua capacidade para organizar e liderar o seu grupo de amigos, era astuta e sabia analisar as situações.

Entramos num salão grande, totalmente coberto com quadros com retratos, parecia que estávamos a ser observados. Os quadros eram de uma qualidade estonteante, com muitos detalhes, muito reais, os olhos das pinturas seguiam-nos a medida que avançávamos, para o que parecia ser uma secretaria com um pequeno homem que escrevinhava qualquer coisa num rolo de pergaminho. Interessante era haver uma sala tão grande como esta, e apenas ter uma peça de mobília, estranho pelo menos.

– Governador! – Apressei o passo, demorei o tempo necessário para ver desaparecer a cabeça de Lord Thells entre a pilha de livros e papiros. Lord Thells era um homem pequeno, não excessivamente pequeno como os Anões do Rei, mas a sua figura nem sempre parecia merecedora de tamanho respeito. No entanto, era uma personagem muito acariciada no Reino pelas suas preocupações com o povo e com a justiça dos atos cometidos dentro de Fort Joriel.

– Sir Frederik, como está!? – O sorriso era caloroso.
– Temo que a nossa chegada não seja nas melhores das circunstancias. Saiune foi atacada, tivemos que evacuar á pressa, separamo-nos em grupos, mas acho que por enquanto apenas o meu grupo foi feliz.
– Compreendo, mas quem é esse inimigo?

— Runngar —
O Bosque Escuro estava a prestes a ficar para trás, a orla da floresta era cada vez menos densa, olhei para este grupo caricato, restos de um grupo assassinado, resistentes e sobreviventes.

A ideia de rodearmos a planicie que antecipa Fort Joriel tinha sido uma boa aposta, evitamos perigos que não saberiamso como lidar com eles.

Desde que enterramos os corpos que sinto uma presença constante, algo que nos persegue, mas no bom sentido, que nos protege de outros perigos. Pensando bem, não houve uma unica situação em todo o caminho, desde entao, que tenha persentido que tivessemos em perigo. Claramente os espiritos estam a acompanhar-nos e a evitar que estas crianças sofram a mesma tragedia que eles sofreram.

nunca fui um crente do grande Criador, não sei metade das respostas sobre todas aquelas perguntas ás quais o Criador é a resposta, mas por outro lado, nunca tive interesse em as fazer. No entanto, acreditava piamente que o grupo estava protegido de alguma forma por estes espiritos que acompanhavam as crianças.

Fiz sinal para parar, avancei cautelosamente e sai da orla da floresta, tudo parecia calmo a estrada não era muito longe, em breve estariamos em Fort Joriel.

– Meninos, vamos chegar á estrada e estar atentos, ninguem fala com estranhos, enquanto não entrarmos em Fort Joriel, mantenham-se perto de nós e façam o que mandamos. Quando estivermos na cidade, pediremos para falar com Sir Frederik, ele decidirá o que fazer. Perceberam? – todos abanaram com a cabeça. Olhei para Gaine que olhava a orla da floresta com olhos de prémio. Compreendia-o tão bem…

Em breve estariamos fora desta fuga… provavelmente o destino seria o mesmo, mas pelo menos tinhamos ganho mais tempo.

— Gaine —
A orla da floresta estava á minha frente, tinha pensado muito nestes dois dias, e não sabia como concluir este passo…

A inacreditavel mudança em mim gerou um novo mundo na forma de novos ideais, apesar de tudo ser tão novo, sentia-o como se existisse desde sempre, apenas estava recalcado, ou escondido, e caberia-me desbloquear esta possibilidade. Pensando bem era o que fazia mais sentido, todas aquelas profecias inuteis que ouvia acerca do Criador tinham agora um sentido filosofico que nãotinha conseguido descortinar. todos estavamos unidos, de alguma forma, ou atraves de conexões diretas que apos percebidas se tornavam irrelavantes. toranvamos parte de um novelo gigante que se emaranha.

O tempo fazia mais sentido agora, sento agora que tinha estado a aproveitar mal o meu tempo, os meus esforços até hoje era o de acompanhar o meu pai, o de continuar o seu legado, o de ter uma familia e por ai adiante, tal e qual como uma grande roda que não pára. Mas esse é o grande erro, a roda pára, e nesses momentos tudo muda, e o ato de continuar a querer seguir um caminho que ja nao é o mesmo, apenas porque estamos habituados torna-nos menos pessoas.

Com o pouco que tenho dormido, não porque não queira, mas o meu corpo não mo permite, com o extase de tentar entender todas estas novas possibilidades, deu-me tempo para entender que existem algumas linhas que são reativas que transmitem informação que ainda não consigo entender na totalidade.

SSinto um chamamemnto, nao sei como, uma das linhas de vida puxa-me para um destino contrario ao que pensaria seguir, algo que me incita a aprender mais a saber mais, a perseguir esta a necessidade de saber. Esta vontade, decidiu por mim, teria de arranjar maneira de não ir para Fort Joriel, ai não poderia perseguir o que me impelia.

Durante dois dias esforcei-me por manter todos seguros, por incrivel que pareça os animais tambem estão ligados, e foi simples senti-los a aproximar e antecipar uma fogueira, ou um desvio. Mas assim que o grupo estivesse em Fort Joriel pelo menos estaria mais seguro.

Lhara ia chorar baba e ranho por não me ter perto, sempre fui muito protegido por ela, e sinto saudades dela, principalmente por não saber quando a voltarei a ver. Mas no fim de tudo, sabia que ela estava bem, em segurança, em Fort Joriel com Sir Frederik e o resto do grupo. Sentia-o.

A ideia era despistar Krish com um engodo e simplesmente desaparecer, eles não podiam se dar ao luxo de ir em perseguição de um só miudo. Esforcei-me por chamar um animal que pudesse colocar algum alvoroço, encontrei o que parecia ser um javali ou porco selvagem, o trilho que seguiamos era um dos trilhos que seguiam na direçao da toca dele. Comcei a pensar que a toca poderia estar em perigo e o que quer que ele estivesse a proteger poderia estar perdido, não sabia se iria resultar.

Krish foi o primeiro a sentir algo de estranho, o barulho ainda estava longe, mas vinha na nossa direção, dei o sinal para corrermos
– Vem ai qualquer coisa a correr! – gritei.
– Corram em direção á estrada, os animais tem medo de sair da orla… – disse Krish empurrando uma das raparigas a sua frente.
– Eu fico para ver o que é! – disse Runngar empunhando a sua espada.
– Não sejas parvo Runngar, vem embora, não podemos dar-nos ao luxo de perder tempo… – disse Krish.
Todos começamos a correr, foi então que vi a oportunidade, debrucei-me sobre Filip um rapazito de doze anos que era um eximio atirador de pedras. – Diz-lhes para procurarem o Crocodilo. Agora… Correeeeeee! – e incitei-o a correr.

Corri no sentido da orla da floresta, embrenhei-me nela para não voltar a olhar para trás, não podia, não queria dar a oportunidade de dar tempo a Krish para me encontrar, tinha que percorrer o maximo de caminho possivel antes que eles dessem pela minha falta.

Quem seria este Crocodilo que não parava de me vir parar á cabeça? Sabia que corria na direção dele, já não lutava contra isso, sentia-o na pele, sentia que era o que tinha de fazer, se queria respostas ás minhas questões. Se queria compreender, aprender, e domar o que estava a corromper o meu descernimento a toda a hora com novas descobertas.

Era a minha hora de voar…

— Krish —
-Abram os portões!!! – bati na porta com toda a força que tinha.
A adrenalina da corrida era muita, nunca cheguei a saber o que é que vinha atrás de nós, mas tambem, estavamos tão perto, não achei razoavel ficar para nos defender quando tudo poderia estar bem atrás de muros, e com comida quente e agua na mesa.

Uma pequena janela na porta do homem, abriu-se.
– Quem vem lá? diga ao que vem?
– Meu nome é Krish, vimos de Saiune, o nosso grupo ja deve ter chegado, nos ficamos para trás.
– Vieram de Saiune? viram o acampamento montado na planície de deram a volta, muito bem, foram espertos!
– Acampamento?
– Hum… Entrem e vejam pelos vossos próprios olhos.

Mandei entrar todos a minha frente, era o culminar dum pesadelo dentro de outro… mas ao menos a primeira parte terminara.

– Procuramos o nosso grupo, Sir Frederik estará muito interessado em saber as nossas novidades.
– Sim claro, subam! – mostrando um acesso ás escadas.

Subimos para a muralha, e foi então que vi ao longe, na planicie o que parecia ser um acampamento de tendas negras, eram apenas vinte, tendas pequenas, havia movimento perto das tendas, mas era apenas um vislumbre ao longe, e agora… a minha cabeça estava noutro sitio.

Seguimos atrás do guarda, por cima das amuradas, havia muros por toda a cidade, de certo modo fragmentavam a cidade, mas permitiam um rapido acesso aos guardas a todo lado.
Descemos perto do que parecia ser uma mansão grande com um jardim enorme, já ha muito tempo que não vinha á cidade, e era sempre uma aventura. Á entrada estava 2 gurdas com albardas, o guarda falou com um deles que virou as costas e entrou.
– Bem, por mim é tudo, esperem aqui. Ahh! e não se metam em sarilhos! – olhando para os mais pequenos com um sorriso.

Passaram cinco minutos e uma multidão parecia sair de dentro da casa tudo o a correr, eram gritos de alegria, choros, senti-me um pouco enjoado com toda esta felicidade… Havia corpos queimados no meio do Bosque Escuro, pessoas, pais, mães, filhos irmãos… senti uma enorme necessidade de…

-Krish! – Lhara saltou para os meus braços, num abraço apertado, não me contive… e chorei.
– Que se passa Krish, onde está o meu pai e a minha mãe? e Gaine? e Lynn?
– Lynn deve estar com uma das raparigas – apontei – Gaine esta por ai… mas, receio que traga más noticias, Lhara… – ela começou a chorar sem me deixar terminar. Abracei-a retribuindo o calor, e falei-lhe ao ouvido.
– Teu pai e a tua mãe são herois, o teu pai salvou todas estas crianças, todas! e a tua mãe protejeu-os até ao fim. Gaine contou-me que ela tinha subido com eles até ao buraco onde se esconderam, onde Lhara lhe tinha mostrado uma vez. – senti um pequeno sorriso esmagado contra o meu pescoço.
– Chegamos ao local e estava o resultado de um massacre sem hipotese, não tivemos hipotese se não queimar os corpos. Demos o melhor que soubemos das nossas preces ao Criador, mas gostava de poder ter dito mais…

– Não! fizeste tudo o que podias… agora apenas quero agarrar Lynn e abraçar Gaine…

Vi-a sair dos meus braços, senti um arrepio. Deixei-a ir, afastou-se para procurar Lynn, já á algum tempo que não pensava nela deste modo… abanei a cabeça, nap queria mais confusoes para hoje…. procurei Sir Frederik, Runngar ja estava perto dele.
– Então o que se passou Runngar, vejo que recuperaste a minha espada, tenho andando a perguntar-me sobre ela… não sabia onde a tinha deixado.
– Encontrei-a um pouco abaixo da Fonte Riscada, estava perto de um corpo desconhecido, provalvelmente algum inimigo que se debateu com um dos nossos. Não sei como ele a conseguiu…
– Sir. – levei a mão a cara para certificar-me que não havia lagrimas nos meus olhos.
– Krish, estão bem, já vi que encontraram parte do outro grupo… presumo que a sorte dos restantes não foi a melhor… conseguiram ver o inimigo?
– Essa é a parte mais estranha, não vimos nada nem ninguem, o tamanho da selvajaria deu a entender um grupo grande, e muito organizado, porem… as pegadas de saida e as pistas deixadas eram totalmente contrarias, resumindo tudo a uma duzia talvez um pouco mais de individuos. No entanto, pelo que Gaine me contou, Sear escondeu as crianças num buraco juntamente com Thalia, mas esta ouviu vozes e saiu do esconderijo para tirar a atenção do local… são verdadeiros herois.
– Sim, realmente são… mas não esperava outra coisa de uma familia como a de Lhara. Bem não vamos alongar mais por aqui agora, teremos muito tempo para discutir detalhes, venham para dentro, comemos, bebemos e descansamos. Vão ver que as memorias voltam mais fortes e com mais cores após umas boas horas de descanso.

Aos poucos todos fomos entrando, mas estava algo errado… faltava algo, ou alguem…

Foi quando fechei os olhos que me lembrei… não via Gaine desde a correria… e alias… nem sequer tinha visto do que é que corriamos… estavamos tão perto do objetivo, que qualquer coisas nos faria correr para chegar mais depressa, nem tive tempo de avaliar a situação… e onde estará Gaine?
Já não fechei os olhos… sentei-me na cama… e voltei para o salão… ao menos com a musica… acabaria por me distrair…
— Lhara —
Sentir Lynn nos meus braços recordava o cheiro de casa, os cozinhados de minha mãe e o carinho do meu pai. Apertei-a com força… não a largaria por nada deste mundo…

Procurei Gaine por todo o lado ninguem sabia onde estava, nem sequer lembravam-se de o ter visto.

Aquele meu irmao era um despistado de primeira, provavelmente teria adormecido num canto, ou andava a fazer coisas que não devia.
Dei mais umas voltas pelo edificio, mas em vão. Filip, apareceu com uma carita laroca e puxou-me a camisa, para falar comigo, baixei-me, e ajoelhei-me.
– sim Filip, diz amor! como estás?
– Olá Lhara! olha… o Gaine disse-me para dizer para procurarem o Crocodilo.
Ri-me, só mesmo Gaine para estar com estas bricnadeiras.
– Está bem Filip, vou procurar então o crocodilo. Ele disse onde estava o crocodilo? – Filip abanou a cabeça.
– E tu sabes onde está Gaine? – sussurrei com um dedo a frente da boca, para indicar que era um segredo nosso… uma brincadeira.
– Não Lhara eu não sei onde ele está… Nós corremos para dentro da cidade e ele correu na direção oposta….

um vazio… uma vontade enorme de perder os sentidos e não acreditar no que o pequeno Filip estava a dizer…
Pousei Lynn no chao, que gatinhou para o pé de Filip, agarrei-o nos ombros e olhei-o nos olhos.
– Tens a certeza, Filip? Tu tens mesmo a certeza? – ele abanou a cabeça afirmativamente.
– Então vem comigo, vamos falar com Sir Frederik para lhe contares a historia.

Caminhamos pelos corredores até ao centro do salão, onde havia musica e comida, Sir Frederik estava sentado junto a Krish e a Runngar falavam calmamente com uma caneca á frente.
A minha cara era um espelho da minha alma, a situação era grave e tinha que ser resolvida.
– Krish… Runngar… disseram que Gaine estava com voces… á quanto tempo não vêem Gaine?
– Pois… Lembro-me de o ver na orla da floresta mesmo antes de sermos atacados, e termos fugido. – disse Runngar tentando lembrar-se.
– Lhara, antes de vir para aqui, tentei ir deitar-me, mas não conseguia descansar, não conseguia parar de pensar em Gaine, e no porque é que não me lembrava da ultima vez que tinha falado com ele. Por isso, vim para aqui para falar com Sir Frederik e com Runngar sobre este assunto… temo que desconheça o paradeiro do teu irmão…

Não aguentei aquela conversa da treta e explodi
– O quê? e quando é que tencionavas dizer-me? trata-se do meu irmão… como é que foste capaz de o perder, ele é apenas uma criança… deve estar assustado… perdido… Filip… conta-lhes o que me contaste a mim.
– Sir… Gaine disse-me para vos dizer para procurarem o crocodilo.
– Mas espera, Filip quando é que falaste com Gaine?
– Enquanto estavamos a fugir Sir.
– Mas tu sabes onde ele está?
– Claro que ele não sabe, Runngar! Se não já tinha ido á procura dele e não estava aqui a perder o meu tempo com vocês inuteis.
– Lhara, tudo isto é grave, mas vamos rever os passos do teu irmão e enviar uma patrulha para o procurar e resgatar, acalma-te filha.
– EU NÃO SOU SUA FILHA! E NINGUEM ME MANDA ACALMAR!
– Lhara, eu vou até ao fim do mundo para encontrar o teu irmao. – a cara de Krish era de pura preocupação mas nao podia baixar as armas agora que ja tinha explodido.

– Eu quero ir á procura dele… hoje… por favor… – lagrimas cairam do canto dos meus olhos diretamente no chão, parecia que tinha ouvido a tocarem no chao.
– Filip viste por onde ele foi?
– Sim, ele foi na direção oposta, pensei que ele fosse lutar com o que quer que viesse na nossa direção. – disse Filip encolhendo os ombros.

– Pois foi, realmente lembro-me de ter sido Gaine quem deu o alarme, e todos demos ouvidos ao que ele tinha dito, havia algo a correr na nossa direcção, e que tínhamos Fort Joriel tão próximo nem sequer pensei duas vezes, e corremos. – disse Krish pensativo.
– E nem sequer me deixaste lutar… eu nunca cheguei a ver o que vinha na nossa direcção.
– Mas… e se… Lhara estou só a pensar….
– Diz, o que foi, desembucha!
– Mas, …e se Gaine queria que fossemos para a cidade para que ele pudesse ir para outro lado qualquer?
– O que? não sejas parvo! não faz qualquer sentido! porque haveria o meu irmãozinho fugir á cidade? e para onde ele iria? ele não conhece nada aqui! ele saiu apenas uma vez da aldeia! não me parece algo que Gaine fizesse, só isso…
– Pois Lhara… mas sem ofensa, o teu irmão desde que o apanhamos não tem tido o comportamento normal que teria… e temos que nos lembrar que Thaila e Sear apenas nos acompanham em espírito. Poderá ser uma maneira de ele fugir para nao ter que enfrentar a verdade do que aconteceu aos vossos pais. Estou só a dizer… – Krish olhava para mim intensamente, como a tentar receber aprovação, mas não lhe faria a vontade, era tudo mentira e estavam a perder tempo com conversa, já deviam estar a caminho.
– Pois o que eu sei, é que ele está lá fora, sozinho… enquanto vocês aqui emborcam cerveja e comem carne quente… eu vou lá fora… quer vocês venham comigo ou não…

Sai, fiz uma festa na cabeça de Filip e dirigi-me para as escadas.
Era noite, sabia disso, estaria escuro, e frio, mas era o meu irmão pequeno que estava na rua, que estaria assustado. Senti alguem a chegar ao meu lado, Krish, entregou-me o um casaco.
– Sabes Lhara, acho que o teu irmão te vai surpreender… ele está numa idade em que se quer superar a ele proprio, em que ele quer se afirmar como um adulto que tem uma opiniao, algum dia vais ter que o deixar crescer, ou ter quinze anos para ti é ser uma criança… pensa nisso. Mas por agora, vamos andando até ao local onde nos separamos, não é muito longe daqui…

— Krish —
Caminhamos pela cidade até á saida Norte da cidade, os guardas colocaram alguns entravas á nossa saída, alguns deram risinhos como se estivessem a dar a entender que queríamos ir “passear na floresta” , sorri e acedi á encenação.

Passamos os muros e apenas a lua nos dava luz para caminharmos, acendi a lanterna de óleo, havia que chegasse para cerca de duas horas de luz, teríamos que nos despachar caso quiséssemos chegar a alguma conclusão.

Seguimos a estrada, e era fácil de ver onde um grupo grande de pegadas entravam na estrada a passo de corrida, seguimos o trilho até á orla da floresta. Estávamos silenciosos, para alem de ser necessário numa situação como esta, não havia muito para dizer, tinha falhado para com Lhara, e sentia-me mal por isso. Sentia-me muito mal, mais por sentir que ela tinha acabado de perder os pais, e ter recuperado a pequena irmã dela, e agora tinha-a de voltar a abandonar para procurar o irmão que eu não protegi como me comprometi a fazê-lo…

Imaginei a cena de manhã – Estavamos todos em fila – apontei para o trilho – Gaine caminhava á frente de Runngar – fazendo gestos – Gaine dá um alerta, Runngar vira-se e empunha a espada – simulei a espada – Chamei Runngar para se apressar, Filip e Gaine ficaram para trás, cruzamos aquelas sebes e entramos na zona da estrada – apontando para o local de onde tinhamos vindo.

As pegadas sugeriam que Gaine tinha ido na direção contraria da que vinhamos com o grupo, caminhei tentando entender, e as pegadas era bem espaçadas, indicando um passo de corrida intenso, mas não havia pegadas de mais nada vindo daquela direção. O que me dava a entender que o ataque teria sido simulado por Gaine.

As pegadas afastavam-se do trilho que tinhamos vindo a fazer ou seja, se fossem sempre na mesma direção diria que atravessaria o Bosque Escuro em pouco mais de um dia, por isso havia possibilidades de Gaine ainda estar dentro do Bosque, ou entao mudou o rumo e estaria noutro local qualquer. As povoações mais proximas para alem de Saiune e Fort Joriel eram, Baalis a 2 dias a Norte pela estrada, Tudin a 3 dias pelo trilho e Maruk na zona do rio, a uns bons 5 dias. No entano, haviam quintas pelo meio, em que ele poderia parar para pedir auxilio, mas… so iniciando a busca, não havia mais nada para retirar daqui. Seguir uma pessoa á noite sem qualquer consicienca para onde ela foi… era um trabalho praticamente impossivel.
Sugeri a Lhara que partiriamos aos primeiros raios de sol, e que não iria descansar enquanto Gaine estivesse seguro com ela.

A volta para a cidade não foi facil, o silencio era constrangedor, e temia perder uma pessoa de quem gostava por um erro irresponsavel da minha parte, sentia-me revirado por dentro.

Cada um foi para seu lado, sem dizer mais uma unica palavra. Falei com Sir Frederik e expliquei-lhe o que achava que se tinha passado e sugeri partir de manhã com Runngar e Niifh.

— Gaine —
parei para respirar. Era noite profunda e não aguentava continuar mais. Não sabia o meu destino mas sentia aquela linha grossa a pulsar a puxar-me, estava esgotado . Sentei-me num tronco e lembrei-me do que Lhara me dizia sobre o Bosque Escuro, “a noite é breu, mas não é calma, é durante a noite que o Bosque caça e quem la estiver dentro é presa” sorri da tontice com que a ouvia, e da birra que ela faria quando se apercebesse que tinha sido eu a escolher este caminho. Por momentos fechei os olhos… Mas foi tao breve como um bstimento do coração, uma dor fulminante acordou-me era como uma injeção de força, de vitalidade, era impossivel parar. Pus-me de pé a tentar perceber o que tinha sido esta dor, ja não era a primeira vez que algo so genero me tinha acontecido e da última vez tinha terminado desmaiado no chão coberto de baba e com uma cara parva, como descreveu Lhara. No entanto todos os meus musculos estavam sarados não tinha cansaço e parecia ter comido uma refeiçao embora não me lembrasse do sabor. Aquela linha puxava-me outra vez… E comecei a correr.

Durante 3 dias corri sem parar, já sabia que não precisava de olhar para trás não corria com ninguem no meu encalço desde que tinha partido de Fort Joriel, não me sentia cansado, mas sabia que o meu corpo estava moido e confuso.

Sem comer… Sem beber… Não sentia necessidade. Tinha evitado as estradas e caminhos, aldeias e quintas isoladas. Mas chegava agora ao rio e sentia que era o limite do meu corpo.

Avistei o aglomerado de casas que antecedia as docas da pesca e da passagem para o outro lado. Apesar de não ter bom aspeto tinha que tentar arranjar um sítio para descansar. Tinha poucas moedas não sabia o que dava para comer. Entrei na estalagem, 2 clientes em mesas separadas bebiam uma caneca de algo escuro, talvez fosse cerveja.

dirigi-me ao balcão, tirei as moedas e sentei-me coloquei as moedas no balcão:
– Sir… Preciso de comer e dormir, é tudo o que tenho e não me importo de dormir no estabulo.
– Jovem aqui não ha Sirs, podes tratar-me por Panelas. Podes dormir no estabulo, pedirei para te darem um fardo de palha para descansares. Quanto a comida… Bem… Não da para muito… Mas acabamos de fazer o jantar e não gosto e comer sozinho… E esses dois ja estão mais para la do que para ca… E uma história acompanha sempre bem um bom prato de estufado. – sorriu terminando de limpar a cabeça com um dos panos imundos que tinha no balcão, encheu a cabeça e colocou-a a minha frente. Virou costas e entrou dentro dda cozinha, não foi mais do que uma minutos. Panelas trazia um tacho que fumegava o cheiro inundou toda a sala, ele fez-me sinal com a cabeça para o seguir, levantei-me e deixei a caneca vazia para trás.

– Miudo, não deixes a caneca para trás, vai ao balcao e serve duas. – estava esfomeado, fiz o que ele pediu como se a minha vida fosse estar atras de um balcao.

Sentei-me já com a boca imersa em saliva. Após o prato estar servido, olhei para ele, para pedir autorização.
– Sim, rapaz come, come e dpois falamos… – Sorriu e bebericou da caneca.

Ataquei o prato como se a carne ainda estivesse viva e a minha vida dependesse de mordidelas e arranhadelas. O prato ficou vazio num instante, mas eu tinha muita fome… e o meu estomago roncou alto e bom som, como se fosse uma chamada de atenção para quem quisesse ouvir. Panelas serviu mais uma concha de estufado entregou-me uma grossa fatia de pao de centeio, e empurrou-me a caneca a frente.
– Não te esqueças de beber, não vas morrer engasgado, com a velocidade que comes, ainda ficas com um osso preso na garganta. – cacarejou, uma risada estridente digna das usuais historias dos bardos.

– Então… agora que a barriga ja esta mais cheia… rapaz… quem é que és e de onde vens?
– O meu nome é Gaine, sou de Saiune, vim a correr desde Fort Joriel, e nos ultimos tres dias nao vi ninguem nem nada.
– O que? julgas que eu sou parvo rapaz? três dias? mas vieste a voar? Fort Joriel fica a uns 5/6 dias daqui, e eu não vi nenhum cavalo, como é que raio vieste em 3 dias para aqui?
– Eu tambem não tenho bem a certeza, mas não me lembro de ter dormido, ou parado para comer.
– Mas porque é que não descansaste? estás a tentar matar-te? ou… vem alguem atras de ti? – levantou-se com um ar pesado.
– O que é que tu fizeste para estar a fugir? – com um movimento rapido agarrou-me nos colarinhos, estremeci com o golpe, deixei cair a caneca que se entornou no chao e foi-se despedaçar junto a outra mesa.
– Eu não fiz nada, juro! Eu sou um batedor… que vim avisar que Saiune foi atacada por um exercito que veio do mar em barcos vermelhos, e que Fort Joriel está sob ataque. – disse tudo isto quase a gritar. O impacto foi instantaneo.
– O que? fomos invadidos pela costa? Sabes quantos são? ou que exigiram em troca? eles dirigem-se para onde… ? vá.. responde-me! – abanava-me os colarinhos, como se aquele movimento fizessem as palavras correr mais depressa, coloquei as minhas mãos nas dele. e forcei-o a largar-me.
– Panelas… sou um batedor ao serviço de Sir Frederik da Guarda da Rainha, regente de Saiune e membro do comité do governador de Fort Joriel, vim em missão de avisar as povoações mais perto que o reino está sob ataque. A sugestão dada é abandonarem as quintas e todos os povoamentos perifeiricos e juntarem-se a uma das cidades. Se quiserem lutar, vão para Fort Joriel, se quiserem segurança então sugiro a Capital, WessStep. Agora largue-me por favor. – afastei-o e olhei-o nos olhos, tinha sido muito persuasivo, ele estava deveras assustado, o estabelecimento estava vazio, quem quer que estivesse aqui, já tinha saido, a correr e sem pagar, esperava pelo menos que estas pequenas mentiras se espalhassem da melhor maneira. Ao menos ajudaria o maior numero de pessoas durante o meu caminho.
– Mr. Panelas, agora… pode-me dar um fardo de palha para poder descansar e continuar a minha missão? Juro pela minha honra que voltarei para o compensar, caso se fique por Maruk.

– Sem problema Sir arranjarei um quarto para si onde poderá descansar. – levantou-se da cadeira e subiu a escadaria, tinha acabado de largar uma noticia pesarosa na vida dele, e ainda se estava ajustar. O problema é que ainda não sabia para onde ia, logo a logica da minha mentira ia terminar por aqui, sabia que que precisava de um barco para subir o rio, mas tambem sabia que não tinha qualquer dinheiro para o conseguir.
Panelas fez-me sinal do topo da escadaria para o seguir. subi a escadas e entrei dentro o quarto, era pequeno mas tinha uma cama e uma banheira.
– Quer que prepare um banho Sir.? – apontando para a banheira.
– Deixe estar neste momento apenas me quero afundar no colchao.
– Se precisar de alguma coisa estarei la em baixo sir? Sir? Desculpe… sabe quanto tempo demoram a chegar a MAruk? Tenho que avisar a minha familia.
– Esteja descansado Panelas, o impasse no Fort de Joriel poderá suster o exercito por alguns dias, quem sabe semanas, se conseguir que um dos nossos batedores chegue á Capital a Rainha poderá ter uma palavra a dizer. Agora deixe-me descansar, ja sinto o peso do sono nos meus olhos… –
Panelas fechou a porta e ouvi os passos dele a descer as escadas… um, dois, e …

=== 5th Chapter – Chasing memories ===

— Niifh —
Mantive-me calado até chegarmos a Fort Joriel, e não tinha nenhuma vontade de voltar a falar. Tudo o que me restava eram os meus amigos, já não tinha familia apenas lembranças, e as minhas entranhas estavam corrompidas por dentro por não saber como me vingar.

Subi á amurada Sul da cidade, não havia guardas nesta parte, deviam estar a fazer uma volta de vigia, por isso não teria muito tempo até que me mandassem embora. O acampamento inimigo estava montado a uns 500 metros de Fort Joriel, era uma mancha escura iluminada pela luz da lua, era impossível ter uma noção precisa de quantos eram, mas não podiam ser muitos. No entanto, este acampamento era uma amostra grosseira e sarcástica do numero de inimigos que estariam em movimento.

Quem seriam estes homens do posto avançado? e como é que a presença arrogante deles continuava a afastar a guarda de Fort Joriel.

Pelas minhas contas o exército demoraria uma semana a chegar á planicie de Fort Joriel, pelo tamanho que imaginava ser após ter visto todos aqueles barcos. A grande maioria viria a pé, mas alguns conseguiriam apanhar alguns dos cavalos dos aldeões, talvez uns 20.

O muro não era muito alto talvez uns 8 metros de altura, a zona por baixo de mim era um tufo enorme de ervas e galhos, guiado pela minha vontade de me vingar, saltei.

Aterrei no meio de galhos quebrados, mas felizmente não tinha nenhum osso partido – que cabeça a minha não podia ter saido pela porta? – pensei feito parvo…

Avancei para o bosquete mais perto, tentaria aproximar-me o mais possivel do acampamento e ver quem era este inimigo que tinha tirado a vida dos meus pais.

Furtivamente aproximei-me, estava a pouco mais de 20 metros atrás de uns arbustros, era dificil aproximar-me mais, a planice nao oferecia bons esconderijos.

Foi então que vi, homens de negro, não conseguia ver as suas caras, mas senti a revolta no meu estomago. Tudo aconteceu depressa demais, comecei a correr na direção do primeiro, empunhando uma adaga e uma espada longa, gritei como se a força aumentasse, e com um golpe cortei a garganta do primeiro, dancei a espada pelas costas do segundo, e rodopiei atirando a adaga no olho do terceiro. Já não interessava a conta, estava disposto a morrer e a levar o maior numero comigo, sangue por sangue. De uma das tendas saem uma dezena destes guerreiros negros, apanhei uma lança e corri para eles …

– Hey tu! Não podes estar aqui em cima! A muralha é propriedade da Guarda, desce dai antes que queiras passar uma noite enjaulado.
– O gajo não está a ouvir? – um dos guardas espetou-me a parte de madeira da lança, e eu acordei do sonho que estava a ter…

Abanei a cabeça, estava no topo da muralha, em Fort Joriel, a ronda ja tinha terminado, e eu não tinha recuperado a minha honra.

Baixei a cabeça e voltei para a casa… derrotado…

— Sir Frederik —
Tinha combinado com o Governador uma visita aos jardins da cidade para conversarmos sobre o ponto de situação e ajudar a traçar um plano, para um eventual ataque á cidade.

Mas com a novidade de Krish e de Lhara, teria ainda uns preparativos para falar com eles.

Estavam todos á mesa, ainda era muito cedo, os galos cantaram a pouco tempo. Olhei para estes jovens que tinham escolhido uma má altura para se tornarem adultos. Lhara ficaria comigo e com Lynn, a sua perspicacia e inteligencia iria ajudar a manter estas pessoas dentro dos limites da lei de Fort Joriel, Krish partiria em busca de Gaine, era um pisteiro com experiencia e dos melhores desta zona, Runngar iria com Krish, de maneira nenhuma aqueles dois se separariam, e fariam uma boa dupla, Runngar era um lutador muito forte no corpo a corpo, sabia usar a espada e o machado tendo a sua força como melhor caracteristica.
Por fim Niifh, não sabia como seria com este rapaz, pelo que me contaram após a batalha do Bosque Escuro, não proferiu uma unica palavra, era neste momento um misterio. Sabia que era o mais adulto do grupo, mas não tinha a certeza que conseguiria aceitar a morte dos seus pais de forma leve. Quem conseguiria? espero que a sede de vingança não o leve por maus caminhos, mas, por outro lado, até poderia ser uma boa luz para o encaminhar. Niifh sempre fora astuto com as palavras e como falava, tinha rasgos de genialidade e conseguia tirar os seus cumplices amigos das maiores parvoeiras de sempre, era pouco agressivo no que concerne ao combate, mas era agil, e sabia usar um bordão como ninguem. Sabia que os rapazes viam Lhara como a lider politica do seu grupo, mas considerava Niifh um melhor estratega, quem sabe se estes jovens não teriam um papel nesta guerra… era demasiado cedo para o dizer… mas tambem, neste momento era uma unica esperança.

– Bem rapazes, eu sei que vão partir para tentar encontrar Gaine e colocarem-no em segurança. Mas, apelo tambem ao vosso bom senso, por todas as povoações que passarem, avisem as pessoas para se dirigirem para as cidades a Norte, para a Capital, o que enfrentamos aqui é totalmente desconhecido, mas já vimos o que pode suceder, e ainda nem sequer conseguimos medir o alcance da força deles. – entreguei-lhes um pergaminho, que abri e li – “A todos informo, eu Governador Lord Thelles, sediado em Fort Joriel, deparo-me com um exercito com tamanho desconhecido e força desconhecida ás minhas portas, há 3 dias atras chegaram a nossa cidade cerca de 80 pessoas vindas de Saiune, vimos fumo vindo dos arredores da aldeia e com o discurso de Sir Frederik concluimos que esta foi invadida pelo exercito e metade dos seus habitantes foram apanhados e mortos enquanto fugiam.
Não venham para Fort Joriel á procura de ajuda, recomendo as cidades mais a Norte, onde a Rainha terá mais apoio do seu exercito. Em Fort Joriel, lutaremos até conseguirmos pela Rainha e com o esforço, suor e sangue de todos os habitantes.
Paz á Rainha… e vida ao Reino… Morte aos inimigos que não nos tem respeito” – terminei de a ler e entreguei-a a Niifh.
– Caso as pessoas não acreditem na vossas primeiras palavras. Agora comam e despachem-se todo o tempo que demoram, são pistas que arrefecem.

Estavamos sentados á mesa a tomar o pequeno-almoço quando Lhara entrou…

— Lhara —
Desci até ao salão onde um pequeno fogo já ardia, a sala estava quente e lá fora ainda estava escuro.
Os rapazes estavam sentados á mesa a comer, as malas estavam preparadas e os cavalos prontos para a partida.

Lynn estava na cama a dormir, nao precisava de mim agora.

– Querem mais comida rapazes? – todos abanaram a cabeça negativamente. Dirigi-me a cozinha e comecei a preparar um saco com mantimentos, pão, carnes secas, alguma fruta, queijo salgado, odres com água e uma boa quantidade de álcool.

Quando fui para o salão os pratos estavam vazios, os rapazes já estavam a por as mochilas ás costas, em poucos minutos estariam fora do meu alcance, e não so poderia proteger, mas por outro lado estariam um pouco mais próximos de encontrar o meu irmão.

– Boa sorte putos… não se metam em sarilhos maiores do que aqueles que conseguem conseguem lidar.

Poucas palavras foram proferidas a partir daquele momento, os cavalos foram selados, e o grupo partiu, despedimos-nos ao longe, fiquei ao portão até não avistar o grupo, voltei para dentro, estava assustada e triste por ver os meus amigos saírem da minha alçada, por não ter os meus pais aqui para me apoiarem, por o meu irmão estar longe e sozinho, mas agora tinha Lynn a meu cargo… e não podia vacilar, ela não tinha mais ninguem para tratar dela, noutra altura pensarei em curar estas feridas, agora abertas, até então… sobreviver.

— Krish —
Parei durante pouco tempo no local onde o nosso grupo tinha decidido correr para Fort Joriel, apenas para confirmar que as pistas que vira durante a noite me levavam no caminho de onde tinhamos vindo.
Gaine tinha usado exactamente o mesmo caminho, o que dificultava a tarefa de seguir as suas pegadas, no meio do andar desorganizado do nosso grupo.
No entanto, demorei algum tempo a apanhar esse padrão, mas consegui identificar o local onde abandonou esse trilho e seguiu para Norte, ou seja, se fosse sempre em frente cruzaria o caminho perto da zona de Baalis, mas poderia fazer um desvio um pouco antes e ir para Tudin ou mesmo fazer um desvio dentro do Bosque Escuro e chegar ao rio, e a Maruk. Estas eram as 3 povoações mais perto, e que fariam mais sentido para Gaine procurar algum conforto e descanso.

Continuamos durante mais oito horas, os cavalos estavam cansados, mas durante este tempo todo não encontrei qualquer local que Gaine pudesse ter usado para descansar, nem fogueiras apagadas, nem folhas em camadas, nada… era estranho… no entanto, as pegadas eram consistentes com as do inicio do caminho, o que me tudo dava a indicar que Gaine tinha continuado noite e dia, quanto tempo iria ele manter este ritmo?

– Malta! o rasto continua nesta direção, se continuarmos a cavalo talvez consigamos reduzir o tempo que ele tem de avanço. Pelas minhas contas neste momento ele tem 2 dias de avanço. Se continuarmos nem que seja com os cavalos pela mão, não perdemos tanto tempo. – disse enquanto me levantava e sacudia os joelhos da terra.

– Hum… E se arriscassemos a procurar diretamente nas aldeias, o caminho é bem mais rapido do que andar com os cavalos na floresta, estamos a perder tempo cada vez que temos que seguir rasto, muitas vezes temos que voltar para trás, para o recuperar. Sei que conseguiremos chegar até onde ele chegou, mas não será rapido o suficiente. Eu apostaria ir-mos já para Baalis, a cavalo somos capazes de demorar um dia sem parar, e depois dava-mos um descanso aos cavalos enquanto procuravamos por Gaine. – Niifh, tinha falado… e mais uma vez no seu tom paternalista, mas cheio de razão…
Olhei para Runngar que acenou, o plano tinha logica e era com certeza uma mais valia para a dupla missão confiada por Sir Frederik.

Cavalgamos até ao caminho, e procurei um abrigo, havia alguns nesta zona, escolhi uns arbustos altos, acomodamos umas folhas estendemos os cobertores e os sacos cama, demos comer aos cavalos e trincamos qualquer coisa. Eram horas de descansar se queriamos alcançar Baalis durante o dia de amanhã.

— Untitled —
Tinham passado 5 dias desde que o grupo de Saiune tinha alcançado Fort Joriel, não consegui compreender como é que tinham chegado á conclusão que seriamos uma ameaça, ou sequer que tenham se organizado tão depressa e tão eficazmente e conseguido fugir antes de termos chegado a aldeia.

Infelzmente não conseguimos cumprir o desejo de Ramjah Saav, o Rei das Ostras – “que nome parvo!”

Tínhamos sido contratados para que a conquista da zona sul de SouthGate fosse simples e eficaz, de certo modo como se um acordo tivesse sido feito e a ocupação fosse meramente, digamos preocupação com outros vizinhos gananciosos. Infelizmente para SoutGate algum dia teria que acontecer, as Ilhas escorpião estavam atoladas de gente, e o reino crescia depressa sobre as ordens deste Ramjah Saav, gabo-o por conseguir ter em sua mão um reino tão pequeno e tão evoluido capaz de o seguir para todo o lado.

A população nas ilhas escorpião começou a ter pouca comida, devido aos poucos espaços para cultivar, as ilhas pequenas começaram a sucumbir com a força do oceano, e algumas eram apenas picos de montanhas no mar, inabitáveis.

O reino mais perto era Southgate, e o mais fraco tambem, seria difícil conquistar Underlake, e Greenshadows, devido ao seu acordo militar ou mesmo Uivan mais a Este, carregado de gente estranha.

Estavamos a umas poucas centenas de metros do portão principal de Fort Joriel, era robusto mas facilmente penetrável pelo exercito que se aproximava nos proximos dias. Havia mais um portão no topo Norte, cidade tinha um pequeno castelo, no centro, a maior parte das torres estavam interligadas por um muro que permitia as passagens dos guardas … e não só!

Na zona Oeste havia uma densa floresta, e um enorme cemitério cheio de historia… e de mortos tambem… curiosamente tambem tinha um escoamento de esgoto para um riacho não muito longe daqui.

Levantei-me, não precisava de avisar ninguem, eramos senhores de nós proprios, controlavamos o nosso destino, as nossas linhas de vida.

Corri até á zona mais proxima de bosque, para desaparecer enquanto a pouca luz do sol, ainda brincava com as sombras. Foram precisos 10 minutos, para chegar perto do cemitério, algumas pessoas passeavam, junto aos entes queridos, nenhuma delas se preocuparia, com um individuo em vestimentas de monge, andei descomprometido no meio deles, até me afastar e dirigir á entrada do esgoto, o cheiro era incontornavel, mas a recompensa seria imensa. Se a cidade tem um escoamento, então teria que ter um poço de água, ou seja o riacho deve passar por baixo do castelo, assim é facil que o poço alimente as fontes de Fort Joriel, ao mesmo tempo que a agua que não é usada é escoada pelo riacho com todos os dejetos das casas publicas.

Os tuneis não eram muito complicados mas acima de tudo estava a cumprir um plano desenhado meses e meses atras. Se a agua da cidade estivesse envenenada, os habitantes não teriam qualquer hipotese de sobreviverem sem um antidoto, o qual estava em minha posse. Melhor seria ainda, trocar esse antidoto por uma ocupação pacifica da cidade, sem combate, sem derramar sangue nas espadas.
No entanto, tinhamos que dar uma semana de avanço á doença, a cidade era pequena demais para tanta gente, algumas camas teriam que ficar vazias, e claro Lord Thells teria que sair do seu poiso como governador.

A entrada tinha sido facil de encontrar, tão fácil como saberia que seria, abri a escotilha e entrei. O poço era fundo, tinha uma pequena portinhola á minha frente que dava para o pescoço do poço, onde facilmente poderia despejar o conteúdo da minha garrafa de veneno. Este veneno fora extraído de quinhentos escorpiões, cem por cada ilha que se afunda no oceano, disse a bruxa que mo vendeu, ri na altura, mas ela fora muito clara – Umas gotas disto é o suficiente para matar uma pessoa em horas. – gargalejando um riso incompreensível. Para via das duvidas despejei o frasco todo, não vá haver algum problema…

Agora, era esperar, o efeito iniciaria-se uma ou duas horas depois da ingestão, embora soubesse que não era o único poço da cidade, era o unico acessível pela parte exterior do castelo. Sai daquele fedor em direcção ao acampamento… agora teria que ter cuidado, um monge que cheira mal… pode ser mal compreendido. Sorri…

— Runngar —
Tinhamos avançado muito pouco na primeira noite, descansamos pouco , falamos pouco. Mas tinhamos cumprido com o que queriamos alcançamos Baalis durante o dia, em pleno dia para ser mais exato, estava esfomeado.
Prendemos os cavalos ca fora na estalagem, e logo um moço, veio leva-los para as cavalariças, fiz sinal com a cabeça em forma de agradecimento e empurrei as portas, a estalagem estava cheia, um combate acontecia a um canto, entre dois homens, “apenas punhos” gritava a multidão. Sorri, dirigi-me ao balcão, tirei umas moedas de cobre e perguntei.
– Ei homem, quanto se paga para se beber nesta casa?
– 1 cobre por um copo, ou 2 por uma caneca, o que vai ser amigo!? – sorriu com a cara cheia de dentes inexistentes, parecia ter vindo de um daqueles combates !
– Manda vir duas canecas! Niifh…o que é que tu queres?
– Dê-me um jarro de sangria se faz favor!
– Um jarro, sem problema, uma prata! – gritou o homem para uma mulher que parecia pequenissima atras dele.
– Mas, homem, vais beber por quatro ou quÊ? – perguntou Krish
– Estou a apreciar o combate e o momento, temos pouco tempo na cidade, se queremos informações temos de deixar que o dinheiro tambem fale por si… – para variar Niifh com os seus esquemas esquisitos que faziam logica depois de sairem da boca dele… “falinhas mansas…”

Um dos homens que lutava foi atingido por um murro mesmo em cheio no olho esquerdo, aquilo deve ter doido de certeza! e doeu, tanto que ele não voltou a levantar-se do chão, o vencedor um tal de Igor, foi ofertado com uma caneca de cerveja e um saco de moedas das apostas. Ao menos aqui vivia-se bem.

– Pessoal, vou ali ter com o pessoal dos lutadores, pode ser que saibam algo de Gaine. – levantando-me da cadeira, ia com um sorriso na cara.

— Niifh —
– Senhor… ei senhor… sabe-me dizer se alguem nesta sala sabe ler? tem conhecimento disso? um homem na sua posição de certeza que conhece bem os seus clientes, uma moeda de prata tilintou na mesa.
– Claro que conheço os meus clientes não sei o que é que está a insinuar, está ali Mr. Edwards ele é escriba do regente da aldeia, de certeza que ele poderá ajuda-lo a ler o que o sr desejar. – apontando para um homem ja com alguma idade, digamos uns 40/50 anos.

Dirigi-me para ele, Krish estava animado a olhar para o espetaculo que se estava a desenrolar aos seus pés…

– Sir, Mr Edwards… desculpe?
– Sim… rapaz o que queres, não vez que estou a relaxar! – e soltou uma gargalhada fumarenta, claramente estava sobre o efeito de opiacios, no entanto não tinha outra escolha. Retirei o pregaminho, desenrolei-o e mostrei-lhe o simbolo de FortJoriel e o selo de Lord Thelles.
– Parece mais interessante agora Senhor? – a cara dele ficou verde.
– O que pretende? onde arranjou isso? – disse o homem curioso e assustadiço.
– Sou um mensageiro, senhor, apenas gostava que uma pessoa credivel como o senhor pudesse ler para a população que aqui estáa, certamente a mensagem passará rapidamente, assim que entender o conteudo deste aviso! – sorri parvamente, com escarnio, não precisava de o fazer, mas odiava pessoas estupidas. Entreguei-lhe o pergaminho, que ele calmamente leu, e vi as suas feições ficarem deveras preocupadas.
Levantou-se e colocou-se em cima da cadeira.

– Senhores e senhoras, a vossa atenção, tal como sabem o meu nome é Mr. Edwards e sou o escriba do Regente da aldeia, e estou a ler um aviso muito importante de Lord Thells de Fort Joriel, este aviso é para todos vocÊs, e para as vossas familias. – a sua voz era grave, tal e qual como o assunto…

Assim que ele termina esta frase, vejo Runngar com uma cara de caso, parecia que tinha convencido algum dos que estavam na sua mesa para combater e eu tinha acabado de estragar a diversão dele… seria?

Assim que Mr. Edwards acabou de ler, foram preciso tres segundos para o caos se gerar, no meio da confusão, vi Krish a dirigir-se para uma das mesas, parecia que tinham deixado um saco de apostas fechado e outro por fechar.

Dirigi-me ao balcão e coloquei o saco aberto ao lado do jarro de sangria.
– Sir, peço imensa desculpa por este aviso ter sido dado aqui, e nestas circunstancias, por favor aceite este saco como pagamento por quaisquer estragos que tenham sido feitos aqui da nossa parte.

Krish, carregava o outro saco, seria uma boa ajuda no futuro.

– Entaõ Krish, que informações sacaste ao homem da estalagem, ele viu Gaine?
– Não Niifh, fomos os primeiros forasteiros a aparecer nos ultimos 3 dias, paguei-lhe uma boa maquia pela informação, tenho quase a certeza que não me mentiria.

– Epá e Niifh, qual foi a tua pá! tinha ja um combate agendado, podiamos ter feito um saco de dinheiro!- sorri para Runngar, e pensei “eu sabia!” … dei uma palmada nos ombros de Runngar e apontei para as mãos de Krish…
– Muito mais facil, três em um, avisamos toda a gente, perguntamos por Gaine e ainda tivemos o teu combate sem teres levado um murro!
– Sim… mas… – Grufou – não teve tanta piada!!!!
=== 6th Chapter ===

— Gaine —
Ainda estava dormente, bem quente dentro dos lençois ouvia barulho l´´a em baixo, passos nas escadas, fizeram levantar-me, seria o estalajadeiro?

Alguem pôs a mão no trinco e tentou rodar, titnha trancado a porta só se tentassem arrombar. Mas olhei para o quarto olhei para mim, eu não tinha nada que me pudesse levar…

– Estou a dormir deixem-me em paz…

Por momentos, houve uma paragem mas logo recomeçaram a empurrar a porta. Levantei-me da cama e dirigi-me para a porta com a chave, ia ajudar aquelas pobres almas a abrirem a porta não fossem partir algum osso ou magoar as costas.
-Espera ai que eu tenho a chave a abro-te a porta. – meti a chave no buraco e os empurrões pararam, acho que não acreditaram que o iria fazer. Afastei-me ligeiramente da porta não fosse um maluco qualquer.
– Bom dia… deixem-me dormir que eu estou cansado, se estão a procura de alguma coisa, podem-no fazer mas rapido, para poder fechar a porta. – Olhei para a cara dos jovens, mais velhos que eu, mais corpolentos e nenhum com a capacidade de fazer mal a uma mosca, eram apenas rapazes a procura de algo que pudessem levar com valor, ladrões enfim… Deram uma vista de olhos, viram-me deitar e sairam sem dizerem uma palavra, ao menos tiveram o cuidado de fechar a porta.

Tambem estava na hora de sair da cidade, tinha que me apressar, a minha urge de ir na direção que ia, dizia-me que agora, corria contra outros, ou seja, estava alguem no meu encalce. Podia ser Lhara, mas ela não deixaria Lynn com ninguem, de certeza que era o grupo de Lhara que vinha atras de mim, e se assim fosse Krish certamente já me tinha apanhado o rasto, e Niifh iria engendrar um caminho provavel para pouparem tempo. Vesti-me e sai a aldeia estava praticamente vazia, portas abertas, muita coisa foi deixada para trás.

O impacto do que tinha dito ontem a noite tinha sido grande, mas algo que estava errado… tinha dormido um dia inteiro? Pois, só podia ser, para esta desertificação massiva ter acontecido tão rapidamente. Agora estava posta de parte a ida de barco. Teria que atravessar o rio e seguir até à fronteira de SouthGate com o deserto, só ai conseguiria despistar Krish.

Apanhei uma maçã de um dos cestos da mercearia e comecei a correr, sentia-me como se nada me pudesse parar, como se conseguisse antever algo que me fosse acontecer.

— 2 —
Este ritmo continuou durante mais 10 dias, em nenhum deles parei numa povoação, mas fui obrigado a descansar a meio,, dormi quase dois dias, o que era inacreditável era fazer o suposto caminho que demoraria a fazer em 3 semanas em apenas 12 dias. A curiosidade de saber o que me alimentava de força era cada vez maior, e a sensação que tinha era que tudo estava conectado, o exercito a chegar, o meu desmaio durante a noite, a fuga com o grupo, a fuga com os miúdos, e por fim a minha fuga, tudo estava ligado, havia uma razão… e eu tinha que a descobrir.

Abrandei ao aproximar-me de uma quinta, conseguia ver gente a trabalhar, as noticias iriam chegar muito tarde a muita gente. Tinha que acertar a minha história em termos de tempo, era completamente inacreditavel que pudesse ter feito Fort Joriel até … nem sequer sabia o nome desta povoação. Nem sequer sabia onde estava a estrada para me poder orientar.

Algumas pessoas olharam na minha direção e ficaram paradas, á espera, o meu aspeto era horrivel, e ainda por cima as minhas pernas estavam a ceder. e cai no chão…

– Água!… Á…. por fav…!

— 3 —

Rasgos de luz, abriram-me os olhos, o ceu estava escuro., mas apenas por momentos, quando uma das dez cabeças saiu do lugar os raios voltaram a atingir-me no rosto, levei as mãos a cara para me proteger.
– Água por favor… – um copo de barro foi-me dado, a agua estava fresca… eu bebi tão rapido que me engasguei e cuspi metade para o chão, voltaram a encher e enquanto esticava as mãos mais me davam…
– Calma rapaz… calma… não bebas mais ou vais ficar mal disposto. Come… deves estar esfomeado… – entregou-me pão, queijo e carne seca, encheu-me novamente o copo, mas ficou com ele na mão.
– Vamos amigos, voltamos ao trabalho para que não falte nada a ninguem quando voltarem para casa. – o seu tom era cordial mas autoritario, não precisou de olhar para ninguem para saber que todos cumpririam a sua ordem.
– Quem és tu rapaz? e já agora bem vindo a Fields. Come… não precisas de responder já, mas convem saberes essa resposta na ponta da lingua.
Engoli a bola de farinha com queijo e carne seca, parecia que ia ficar na garganta mas o estranho esticou-me a agua.
– O meu nome é Gaine, sou de Maruk, estava com um grupo de caçadores que caçava nos arredores e fomos perseguidos, não sei ao certo do que fugi, mas meu mestre pediu para correr e eu sou uma pessoa que obedece Senhor, sou sim. A maioria foi apanhada, ou desviou-se do caminho da fuga, Eu corri enquanto consegui, e dormi onde pude, comia o que caçava, ou seja pouco, e esperava encontrar ajuda… mas isso não aconteceu…

– Realmente é uma historia comovente, á quanto tempo estás fora de Maruk? – o sorriso dele era evidente, ele tinha um truque na manga… não sabia era que trunfo.
– talvez uns 15 dias, ou um pouco mais…
– Hum… não saberás porque pararam os barcos de subir ou descer o rio? os Portos estão fechados? O que se passa com os barcos?
– Não senhor, nao saberia de nada, nada que lhe pudesse valer a pena.

– Pois bem, como te sentes?
– Sinto-me bem senhor! Obrigado pela comida e pela água. Não saberia o que faria. – baixei a cabeça em forma de respeito.
– Bem, então se estás bem, podes ir ajudar ali aquele grupo ao pé das arvores, o pequeno almoço paga-se com trabalho, para que possa ser justo com todos, está bem?
– Sim sr. – algo me fascinava nesta pessoa correta e justa.

— 3 —

Apannhei fruta, carreguei cestos, enchi caixas, e lavei sacos, tudo em prol do bom funcionamento do sistema do grupo, rapidos, sem falar, empenhados e trabalhadores. No fim do dia todos levaram um cabaz de comida e uns trocados de cobre. Dirigi-me á carruagem com cavalos e bati á janela.
– Sir… só queria agradecer novamente! – sorri.
– Oh, estava a tua espera garoto, não me esqueci de ti, de forma alguma. Bem, eis aqui a minha proposta, eu tenho um filho mais ou menos da tua idade e tamanho, posso dar-te algumas roupas e mantimentos para a tua viagem, mas primeiro, tens que te lavar. Vai a frente com o cocheiro.
– Sim sir. – não havia porque dizer que não, Fields era um conjunto de terras agricolas coladas umas ás outras todas propriedade de Sir Dailach. No entanto, todos os habitantes das faziam as tarefas das quintas todas, assim todos teriam a oportunidade de levar para casa o que preferissem para comer, e tudo o que sobrasse era para Sir Dailach vender ou abastacer a sua familia, era um sistema altruista e funcional.

Chegamos a um palacio escondido no meio dos bosques, as fachadas da casa eram quase imperceptiveis ao olhar vindo da estrada, mas assim que me aproximei, vi uma casa enorme com muitas janelas e pintada de vermelho, era imponente, e tambem assustadora!

A carruagem deu uma volta e parou, saltei para a frente e esperei por Sir Dailach, acenei ao cocheiro com o qual tinha vindo a conversar este tempo todo.
Ao entrar em casa uma senhora com uma cara muito simpatica convidou-nos a entrar, e olhou para mim como se fizesse parte daquela casa desde sempre.
-Sanny, prepara um banho para o rapaz e da-lhe um dos quartos dos hospedes, ele ficará por cá ate querer continuar a sua viagem.

— 4 —

Passaram vários dias com as paragens habituais, e comecei a ver o padrão que se estava a criar o que quer que me estivesse a guiar levava-me para locais onde o tempo de paragem era curto e onde o contato com outros fosse positivo ou irrelevante para o meu avanço, como se soubesse o que esperar de cada local, a curiosidade aumentou quando cheguei a fronteira de Southgate com Underlake tinha tomado uma direção aproximadamente Noroeste e do que me lembrava da pouca Geografia que sabia besta direção tinha os nossos vizinhos de Underlake, e mais a Norte as magnificas montanhas Gemeas. Muitas foram as suposições mas com muito poucas respostas. O atravessaar da fronteira trouxe nova luz e como tal mais perguntas. Agora prosseguia para Norte, visto que não sabia a extensão das montanhs não estava descartada a possibilidade dever os cumes brancos das Gemeas.

foi mo 3* dia da viagem para Norte que senti a chegada, o fim daquela força que me sugava que me enchia de uma energia que não era minha. Mas a minha frente iniciava -se um pantano… Não encontrei qualquer referência na minha memoria a este lugar… De certo não haveria um comitê a minha espera…

Montei acampamento e preparei uma refeiçao quente de tudo o que tinha conseguido angariar da viagem, orgulhava -me do meu Kit de cozinha e da minha tenda… Não tinha gasto um tostao sem ser no primeiro local onde parei. Ainda não tinha percebido muito bem como e que isso tinha acontecido.

Comi o resto da carne seca que tinha e cozi as últimas 2 batatas. Ainda me restava pao duro e queijo rançoso algum vinho e agua serviria para os próximos dias.

A noite foi calma, a parte dos barulhos de uma quantidade inimaginável de rastejadores existentes nas redondezas. Passei no teste do nojo, mas não deixava de ser perturbador.

Durante o dia o avanço era lento, o terreno lamacento misturado com o não saber para onde ia e a nevoa baixa causava uma sensação de barco perdido a deriva…

o pantano estva coberto de uma erva cortante e irritante pegava-se ao corpo e deitava um liquido que provocava umas pequenas borbulhas. Mas nas zonas sem esses tufos haviam grandes concentraçoes de mosquitos. Logo era escolher o mal menor para cada um. Sem guia, avancei por onde pude, não tinha qualquer pista do que me levaria até este pântano, mas via claramente uma linha que me unia a algo, e era isso que seguia agora. Sabia que era este algo, que me tinha puxado até aqui, que me tinha protegido e forçado a caminhar dias e noites sem descanso, mas que me nutriu e ajudou sempre que precisei. Desde o primeiro dia em que me senti sugado por esta força, para um destino incerto que me senti mais que um simples rapaz, parecia que tinha capacidades que outros não tinham, e de certo modo fez-me sonhar, fez-me acreditar que o caminho que me indicavam era o correto.

O fim das poças chegou e este caminho sinuoso e acidentado deu lugar a o que parecia ser um lago de grande dimensão, apesar da nublina que ocupava grande parte da minha visão, tentei avaliar qual a melhor maneira de o rodear, visto que a minha percepção era que o que quer que fosse que eu procurava estaria na direção do lago.
Optei pela margem que tinha arvores, seriam um apoio mais forte e mais protegido. A margem tinha o que parecia ser um trilho, provavelmente animais da zona, baixei-me para tentar perceber o que me podia esperar neste trilho. As pegadas eram algumas qualquer tipo de animal com quatro patas, não conseguia distinguir muito bem no terreno elameado, lembro-me de Krish ter falado acerca das pegadas numa das saidas, mas sinceramente não tinha tomado a atenção devida, e agora… teria-me dado muito jeito.
Segui com mais atenção ao que me rodeava do que aos meus proprios pensamentos, nem sabia como é que me tinha conseguido aturar sozinho durante tanto tempo. Sorri.

O trilho rodeava parte do lago e seguia na direção de um monticulo, como o cansaço se apoderava das minhas pernas, fiz um ultimo esforço para subir e procurar um lugar abrigado para descansar.

O topo do monticulo tinha imensa vegetação alta, grande parte á custa das silvas que se sobrepunham á vegetação. A vista era praticamente nula, ter subido a uma maior altitude, apenas me aproximou da neblina. Procurei um recanto entre rochas e silvas, apanhei um pau e comecei a bater na vegetação até fazer um abrigo, pelo meu cansaço teria mesmo que descansar aqui, e com esta humidade seria quase impossível fazer uma fogueira para me aquecer. Assim, comecei por apanhar troncos caídos para fazer o que se poderia assemelhar a um topo de modo a colocar folhas por cima e tentar manter o abrigo o mais seco possivel. Do material que incrivelmente me foram oferecendo pelo caminho, contava com um saco cama e dois panos de tenda, um cobertor e uma muda de roupa. Usei um dos panos de tenda para colocar por cima dos troncos e espalhei folhas por cima, para ficar o mais camuflado possivel, o outro pano serviu de chão com o saco cama por cima seria um local otimo para descansar, desde que não fosse atacado por animais selvagens durante a noite… e esse era o meu receio… os ultimos troncos foram encostados ao abrigo de modo a fazer uma porta, ou algo que parecesse com tal. Optei por não vestir a roupa e descansar com a que tinha vestido, assim, quando acordasse teria roupa seca e mais confortavel. Não foram precisos cinco minutos para adormecer, porque o cansaço era superior á fome…

—“—

Os guinchos noturnos acordaram-me, algo entre o uivo de um lobo e o coachar de um sapo, algo estranho, algo que era novo aos meus ouvidos e como tal considerado perigoso e obrigatoria atenção.

Agarrei um dos paus da porta, era o que mais se assemelhava de arma. Não era de todo exímio em luta com paus como Niifh, mas se teria que me defender… tinha que estar pronto…

Os guinchos aproximaram-se e apercebi-me que vinham de todos os lados, como se tivessem a rodear o abrigo. Tentei espreitar entre as frechas, mas a neblina não ajudava, e o não saber o que procurar tambem.

Mas foi num segundo, que o teto do abrigo cedeu, juntamente com guinchos vindo mesmo de cima de mim, os picos das silvas passaram pelo pano tenda, os troncos pressionavam-me as costas, estava preso e incapacitado para lutar… tentei soltar um dos braços para tentar arrastar-me para fora do abrigo, mas a ponta do que parecia ser uma lança rustica cravou-se á frente dos meus olhos, comecei a gritar, “Por favor, venho em paz, não tenho armas… por favor!!” Dois pares de mãos ossudas puxaram-me os braços, haviam garras nas mãos não humanas, temi pela vida e rezei ao Criador. As silvas rasgaram as roupas e a carne nas costas, mas foi por pouco tempo, uma moca atingiu-me na nuca e a neblina tornou-se turva até me consumir a visão.

— ” —

Acordei a balançar, numa especie de canoa, tinha a cabeça dormente e as costas quentes, sangue tinha ensopado o pescoço e ardiam-me as feridas provocadas pelas silvas. Não conseguia entender o que eram estras estranhas criaturas, claramente humanoides, mas com pele de reptil, olhos grandes e uma grande cauda, poderia dizer que seriam meio crocodilos meio humanos, a cabeça tinha uma grande crista vermelha na maioria deles, apercebi-me que as mulheres teriam uma crista mais pequena de uma cor amarelada. Tinha as mãos e os pés atados, cordas feitas de um tipo de planta entrançada, mas suficientemente forte para nem sequer tentar força-las, ainda por cima porque grande parte tinha picos que me apertavam e arranhavam os pulsos.

Eram pouco mais de vinte, “crocos” como os apelidei, em seis canoas, seguiam no lago, que tinha agora estreitado para o que parecia um rio calmo, as canoas eram empurradas com recurso a um pau muito grande que empurrava o fundo do rio, e auxiliado por pás, o percurso era lento mas, duvidava que os “crocos” tivessem qualquer tipo de pressa.

Ainda demorei algum tempo, a consciencializar-me da situação, mas havia uma coisa que se mantinha, a linha que me tinha trazido até aqui, mantinha-se e o percurso que agora fazia ia na direção da mesma, por momentos tive a esperança que alguem ainda me iria salvar, e resgatar destes “crocos” famintos, e que de certeza que me iriam usar como condimento de uma das suas refeições. No entanto, fiquei abismado quando a percepção me permitiu descortinar que estas criaturas estranhas tambem tinham, eles proprios linhas, muito mais finas que a que me unia ao que procurava, e todas elas se interligavam entre si. Incrivel, era que todos os machos se uniam, entre si, com uma linha grossa, e todos eles se uniam á femea que seguia no grupo, com um tipo de linha diferente, não sabia o que isso significava, mas tambem me intrigava que a maioria tinha uma linha unida comigo, e isso, sim… assustava-me e dava-me poucas esperanças, seriam estas criaturas quem sugava as pessoas para este pantano, a quantas pessoas elas teriam feito o mesmo? Parecia-me magia negra…

Foram muitos pensamentos, com inumeras hipoteses, até ter visto pela primeira vez o céu, desde que tinha entrado neste pantano… Os crocos apontaram para o que parecia uma pequena ponte, e um pontão, onde mais canoas estavam atracadas. Na ponte estavam cerca de quatro Crocos, armados com arcos, no pontão mais uma catrafada deles. A canoa bateu no pontão e um dos crocos prendeu a canoa ao pontão, forçaram-me a sair após me desamarrarem os pés, e fui empurrado por um caminho até chegar ao que me parecia ser uma aldeia de Crocos, as casas eram todas feitas de palha e barro, grande parte assente no chão, mas havia muitas penduradas nas arvores, o caminho levou-nos a um largo amplo, e á medida que caminhei, mais e mais crocos se foram juntando, criando uma multidão que me seguia. Forcei-me a manter-me calado, mantendo as rezas a um nivel interior, e tentando observar o maximo do que se passava á minha volta. Todos os crocos, falavam por guinchos, o que se tornava realmente irritante quando, tinhas mais de cem a berrarem ao teu lado. Á chegada ao largo a comitiva que seguia comigo obrigou-me a deitar-me no chão lamacento, de barriga para baixo, enquanto que um guincho fez com que o silencio fosse rei novamente.

De uma das casas centrais um croco de grande porte e com uma cicatriz que lhe cobria toda a cara, aproximou-se do grupo e guinchou para todos ouvirem, os gritos de ovação fizeram-se ouvir, e mais guinchos sairam daquela boca ferida. As minhas mãos foram amarradas a um poste e a comitiva desfez-se, os restantes crocos foram dispersando, apenas o grande Croco ficou no centro.

O vai-e-vem de Crocos criava um padrão de linhas, todos tinham a sua função, e todos a desempenhava como se tratasse de uma sociedade humana. A certeza de que as crocos com crista amarelada eram as mulheres surgiu, quando cerca de quatro crocos se aproximaram de uma e esfregaram a sua cara contra a cara da croco, como um sinal de acasalamento, será? ou teriam uma sociedade que cada mulher tinha varios companheiros. Era peculiar certamente.

Após todos abandonarem o recinto, e a minha presença ter sido ignorada, o grande croco, pegou num pau e escrevinhou na terra o que parecia ser três riscos e por baixo outros sete. olhei para ele, mas não conseguia descortinar o que significava. A cara dele era mais humana do que os restantes, ou pelo menos, a sua expressão. Senti uma afinidade imediata, e a linha que me unia a ele, era mais grossa do que qualquer outra dos crocos. Tinha que descobrir o que isto significava… era como saber algo que não tinha qualquer valor.

– Não compreendo. – disse para o croco. Este nem sequer pestanejou, virou costas e voltou a entrar na casa.

Uma croco, vestida com vestes longas aguardava-o á porta, e mais daquele roçar na cara aconteceu.
Os dias seguintes foram de aprendizagem daquela sociedade, as idas e vindas dos guerreiros que traziam peixe, peles, frutas e legumes e ofereciam ao grande Croco que depois distribuía-a pelo povo, cada vez que a comitiva chegava a agua começava a inundar-me a boca… e passou um dia, e dois… e o meu estomago estava colado ás costelas, tinha fome, estava cansado de ter os braços esticados e de não conseguir dormir, tinha a boca seca e gretada de não beber água, e á minha volta fedia… com o cheiro de fezes acumuladas. Mas nada disto alterou o comportamento daquelas criaturas… nenhuma delas se dirigiu a mim, nenhuma me agrediu, estavam simplesmente á espera que morresse á fome… Ao terceiro sem água comecei a gemer, doía-me a garganta, o nariz, custava-me a respirar com tanto pó que já tinha engolido, já não conseguia abrir os olhos de estarem secos, de não conseguir dormir. Senti-me a desisitir, até mesmo a vontade de saber mais sobre tudo o que me tinha acontecido tinha desaparecido, não tinha forças.

No final da noite, senti novamente, um rasgo de esperança, uma energia eletrificante começou a percorrer o corpo, a primeira impressão é que tinha chegado a hora de conhecer o Criador, mas depois reconheci aquela energia, mas, não era tão forte como antes, era apenas o réstio de algo que parecia estar a esgotar-se, mas foi suficiente para me por de pé… para ganhar força para encher os pulmões e gritar bem alto, não foram palavras que sairam da minha boca, foram grunhidos, grunhidos, ou guinchos, na minha cabeça ecoava “Khalin rei dos Lagartos, Eu sou Gaine o Vigia, e chamo-te para provar a minha força!” – sabia que aquelas palavras não eram minhas, mas disse-as no meio da noite, quando todos descansavam, quando as minhas forças deveriam estar a levar-me para o lado do Criador, quando a água dentro de mim extinguisse e fosse apenas corpo deixado para trás… mas não algo, alguem, velava por mim, e hoje não seria a minha ultima lua.

As lanternas foram acesas, uma a uma, como pirilampos que tinham sido acordados com os meus gritos, urros ou o que seja. Os Crocos foram timidamente se aproximando do largo, onde eu estava de pé, como se nunca tivesse mais de 3 dias sem agua e sem comer… O grande Croco, agora Khalin, apareceu tinha um tridente na mão, usava-o como um cepto, uma grande capa estava colocadas aos seus ombros, totalmente fora do contexto de estarmos em pleno pantano, mas sim, era coerente com a posição de Rei. A multidão juntou-se, O rei Khalin pediu silencio, e grunhiu entre os dentes afiados, palavras que antes não conseguiria entender.
– Lagartos, Soldados, Shamans e Curandeiros, Os vigias voltaram! Já não estamos sós, já não estamos perdidos, podemos saldar agora a divida para com eles! Três dias passaram e sem água o prisioneiro falou a nossa lingua, levantou-se e gritou, chamou por nós! Mas a tradição prossegue, não podemos perder a oportunidade de ter a certeza que os Vigias voltaram, poderá o prisioneiro ser um pedaço do demónio que luta contra a chegada da morte e recebe o poder dos mortos, não sabemos. Por isso teremos que esperar por outro sinal… Agora vão amigos, descansem renovados com esta esperança.

Khalin, aproximou-se de mim e agarrou-me na cara com as mãos ossudas… e puxou de um odre e despejou-me agua na cara, boca, tentei sugar todas as gotas, não conseguia beber como deve ser, mas enquanto a agua jorrou sorvi, podia nao ter outra oportunidade como esta…

e não tive… passaram mais 3 dias… e no meio da noite, num dos devaneios do corpo que se deixa adormecer mesmo em posições cujo não deveria, fui acordado com um banho de água, vários crocos, ou lagartos, despejaram-me agua em cima, foi um tomar banho e beber agua misturado, nem tempo tive para respirar entre baldes, eram uns a seguir aos outros, enguli agua e engasguei-me, tossi o seco da garganta, e o vazio do estomago, até as costelas das costas estarem encostadas ao peito. Arrancaram-me as roupas, e seguiram-se mais baldes. Nu, sozinho, sem comer, e sem saber quando beberia… Estava arrependido de ter seguido a força daquela demanda, de me ter deixado levar pela curiosidade, tinha saudades do meu pai, e de trabalhar com ele na horta, tinha saudades da minha mãe e de a ajudar a cuidar de Lynn, tinha saudades de Lhara e do seu carinho super protetor, tinha saudades e chorei… estava farto de pensar que tinha poderes, e que seria fora do normal, mas não era… eu queria apenas estar em casa, no meio de cobertores quentes e de comida caseira, de ter os meus amigos por perto e de poder ver a familia que me restava. Mas não, tinha sido egoista, tinha aspirado a mais do que me era devido, e o Criador castigou-me, levou-me ao encontro destas criaturas, e puniu-me por não ter pensado na minha familia. O banho terminou, estava despido, tinha feridas nos pulsos, a minha barriga roncava. A croco que se mantinha por perto de Khalin, soltou-me uma das algemas, e com as suas mãos frias e escamosas colocou-me um pano no pulso, a pressão das algemas aliviou, e com a ligadura tornava-se mais facil nao sujar a ferida.
– Obrigado… – e engoli em seco… Ela pegou numa tigela e deu-me agua a boca. Sorvi com as forças que tinha, mas com as dores de garganta da tosse que me tinha atormentado no banho, pouco mais me restava.

Durante mais tres dias, me mantiveram em algemas, sem comer, uma vez por dia, davam-me agua, pouca, o suficiente para me manterem vivo, não sei o que eles esperavam de mim…
Ao setimo dia, soltaram-me as algemas, e eu deitei-me no chao, meio-morto, lembro-me de olhar o céu e pensar que naquela zona a neblina er menor, e que assim conseguia ver o sol, quem sabe a lua ou as estrelas se conseguisse chegar até lá.

Adormeci de cara enfiada na lama, com frio, e com as pontas dos dedos enrugadas, não sentia nada de mais… era apenas um corpo jazido no chao, cuja alma a morte viria buscar brevemente…

— Khalin —
Nunca tinha visto um Vigia tão novo, tão fragil, mas não podia ser menos cuidadoso.
Os Vigias sempre nos protegeram e em troca nós cumprimos o nosso acordo de nos mantermos por perto. Mas á muito tempo que os Vigias não mostravam sinal de exisitir.
A chegada desta criança humana foi muito dificil de combater, os soldados já a teriam comido, não fosse eu ter alertado para a possibilidade de ser um Vigia, e se assim fosse, conseguiria sobreviver. Se não sobrevivesse era apenas mais carne na mesa.
Precisei de esperar três dias para a primeira prova de que este miudo fragil era realmente um Vigia e que eles continuavam entre nós. Mas quem quer que fosse que o mantinha vivo, estaria muito fraco, porque ao terceiro dia poderia ter feito uma revelação, algo que provasse aos seus fieis que os Vigias estavam aqui. Mas não, limitou-se transmitir uma breve mensagem, algo que não torna o rapaz salvo apenas porque soube dizer umas palavras neste idioma… Tinha que haver mais do que isso, e o povo precisava dessa esperança.

Desde o sempre que os Homem-lagarto viveram na zona sul de Aerth, tinham constituido civilizaçoes organizadas em tribos, que se espandiam entre GreenShadows e SouthGate, mas com a chegada dos humanos, aos poucos fomo sendo empurrados, divididos, e começamos a desaparecer. Apesar de sermos uma raça antiga, todo o ppovo é rudimentar, e não tem acesso ao conhecimento que os humanos têm, tornando-os mais fracos que eles. A nossa raça está reduzida apenas a uns milhares espalhados pelos pantanos, a Norte de Underlake, Os Pantanos Purpura, porque foi aqui que uma guerra se deu, no sopé das montanhas Gémeas, e diz-se que este terreno foi alagado com o sangue de guerreiros, transformando-se num pantano vermelho. Mas isso, sáo lendas.
O povo tinha sido dividido, com a chegada dos homens a Underlake, duas tribos se sobrepuseram ás restantes e reclamaram o trono para elas, em lados opostos. Os Homem-lagarto que vivam na zona de Greenshadows, passaram a ser a Tribo Raama e os que vinham de SouthGate a Tribo Fikima. Mas o homem apesar de viver pouco, destroi tudo muito rapidamente e Greenchadows tornou-se asilo de mercenários, que acabaram por empurrar a Tribo Raama para os pantanos, e a chegada dos humanos vindo de Uivan e dos reinos do Este, empurraram a tribo Fikima para o deserto, e os poucos que sobreviveram conseguiram chegar aos pantanos e pediram asilo junto da Tribo Raama. Mas a historia nao fica por aqui, a rivalria entre tribos, levou-nos a guerras internas, e tivemos a beira de deixar de existir, o tempo estava a passar por nós e não estavamos a conseguir subsitir. Até que os Vigias nos alcançaram, de certo modo, vimo-nos protegidos por estes humanos que nos mostraram que existe mais do que guerra nas mãos. A tribo aprendeu alguns oficios caracteristicos dos humanos, a lingua tambem começou a ser falada, e aos poucos apesar de contra a vontade de muitos fomos criando uma sociedade similar de modo a poder-mos interagir com os reinos que nos rodeiam sem sermos mortos por puro divertimento. Os Vigias mostraram-nos as linhas que nos uniam, e que se queriamos sobreviver tinhamos que alimentar e nutrir as ligaçoes que tinhamos entre nós, nomeadamente acabar com a noção de tribos e unirficar-mos a raça, ja eramos tao poucos, nao valia a pena lutar-mos para desaparecer-mos da existencia.

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